Movimento de afirmação

A pretexto de promover um rodízio nas lideranças do governo nas duas Casas do Congresso, a presidente Dilma Rousseff tirou o senador Romero Jucá, do PMDB de Roraima, do cargo no qual ele poderia se considerar como servidor estável do Planalto, por exercê-lo, com idas e vindas, desde o primeiro mandato do presidente Fernando Henrique, há 17 anos. A destituição de Jucá, na realidade, foi uma punição que começou a se desenhar desde a derrota pessoal sofrida pela presidente na semana passada, quando - para que ela soubesse com quem estava tratando - parte da base aliada no Senado se uniu à oposição e barrou a recondução do petista Bernardo Figueiredo, o coordenador do polêmico plano do trem-bala, ao comando da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

O Estado de S.Paulo

14 Março 2012 | 03h08

Jucá havia garantido que o nome do amigo de Dilma, que trabalhou com ela na Casa Civil do governo Lula, seria aprovado sem problemas, apesar da zanga dos políticos por suas demandas não atendidas. Mesmo quando outro senador, o peemedebista amazonense Eduardo Braga, alertou para o risco de um revés, Jucá manteve a votação. Pior ainda, sopraram para o Planalto que ele próprio teria sido um dos mentores da traição que enfureceu a presidente. Por fim, como se estivesse pedindo para sair, fez depois o contrário: tirou da pauta de deliberações a proposta que pune empresas que paguem salários mais baixos às mulheres nas mesmas funções que os homens. Dilma queria sancionar o projeto na última quinta-feira, Dia Internacional da Mulher. Na segunda, trocou Jucá por Braga.

Para não esfregar sal na ferida do influente substituído, ela aparentemente inventou a mudança na Câmara, removendo o líder governista Cândido Vaccarezza, do PT de São Paulo. O seu substituto será outro companheiro. Não que a presidente não tivesse motivos de aborrecimento com Vaccarezza. Na primeira votação do projeto do Código Florestal (a segunda, aliás, está entalada), ele contrariou determinação do Planalto, transmitida pela ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, para sustar as negociações com a bancada ruralista. Na votação importante que se seguiria, a da prorrogação da Desvinculação de Receitas da União (DRU), quem conduziu as conversas, afinal bem-sucedidas, foi a ministra. Também pegaram mal para Vaccarezza os 47 votos pedetistas, socialistas e petistas contra a criação do fundo de previdência dos servidores, que passou a duras penas.

Mas se tudo fossem rosas na relação da presidente com os senadores aliados, como ao tempo de Lula, Jucá ficaria onde estava - e, decerto, Vaccarezza também. Se escolher um líder em começo de governo já é uma faina, substituí-lo é atiçar um vespeiro. Além disso, nos governos de alianças, o líder que não pertencer ao mesmo partido do presidente fica exposto a um conflito de interesse sempre que os seus correligionários entram em rota de colisão com o Executivo - do qual é ele uma espécie de ministro extraordinário para a Casa em que exerce o seu mandato, ou para o Congresso todo. (O líder do governo no Congresso é o senador petista José Pimentel. O anterior, Mendes Ribeiro, do PMDB, virou ministro da Agricultura.)

N0 segundo mandato de Lula, Jucá desagradou aos peemedebistas por ser, segundo eles, governista demais. Mas é o que devem ser os líderes, embora arcando com a servidão de tornar aceitável para os correligionários o que é desejável para o Planalto. Agora, ao que tudo indica, Jucá serviu antes aos seus do que à chefe. Entenda-se por "seus", notadamente, o presidente do Senado, José Sarney, e o líder da bancada do partido, Renan Calheiros. Dilma, na sua vez de fazer saber com quem estão tratando, acertou-os com uma estocada adicional, além da saída de Jucá. Pois o sucessor Eduardo Braga - que já governou duas vezes o Amazonas, é amigo do peito do ex-presidente Lula e só não se tornou ministro da Previdência de Dilma porque preferiu ficar no Senado - é um dissidente: desagradam-lhe os superpoderes de Sarney, Renan e Jucá.

Com a troca, Dilma calcou o acelerador para aprumar o carro da coalizão em vias de derrapar. Foi, portanto, um movimento de afirmação. Resta saber se ela calculou os riscos da manobra.

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