MPL deve dizer de que lado está

 O protesto contra o aumento de R$ 3 para R$ 3,50 das tarifas de ônibus e do sistema metroferroviário da capital paulista, promovido pelo Movimento Passe Livre (MPL), era aguardado com interesse e apreensão, pois foram o mesmo motivo e esses mesmos personagens, mais a força policial com a missão de garantir ao mesmo tempo o direito de reivindicar e a manutenção da ordem pública, que marcaram o início das grandes manifestações de junho de 2013. Os motivos para apreensão infelizmente se revelaram procedentes, embora seja prematuro qualquer prognóstico sobre as dimensões que o problema pode adquirir.

O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2015 | 07h09

A manifestação, que começou às 17 horas da sexta-feira passada em frente ao Teatro Municipal, reuniu cerca de 5 mil pessoas segundo cálculos da Polícia Militar e teve o apoio de sindicalistas e simpatizantes de partidos de esquerda como o PSOL e o PSTU e do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), seguiu o roteiro já conhecido das anteriores. Tudo começou bem e correu pacificamente, mesmo quando os manifestantes impediram o trânsito em trechos das Avenidas Ipiranga e São João, com troncos e pedaços de árvores derrubados pelas chuvas dos últimos dias.

A situação mudou quando eles passaram pela Rua da Consolação em direção à Avenida Paulista. Ali, os baderneiros do Black Bloc entraram em ação e começaram o quebra-quebra que fez o protesto lembrar os piores momentos dos de 2013. Atos de vandalismo se multiplicaram e, ao final da manifestação, por volta das 21 horas, o saldo era de 6 pessoas feridas, 53 presas, 6 agências bancárias, 2 concessionárias de carros e 2 lanchonetes depredadas. Os comerciantes que tiveram tempo fecharam as portas dos estabelecimentos para evitar destruição e saques.

A PM interveio, tão logo começou a baderna, com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral e balas de borracha para conter os mais violentos, que jogavam pedras e coquetéis molotov contra os policiais. Um grupo continuava em direção à Avenida Paulista e outro seguiu para a Avenida Angélica e ruas paralelas.

Um roteiro e um cenário em tudo semelhantes aos das manifestações de 2013. Com uma agravante – agora o MPL resolveu acobertar a ação violenta dos black blocs, ao contrário das vezes anteriores, quando fez questão de proclamar suas intenções e seu comportamento pacífico e criticar o vandalismo. A nota a respeito dos acontecimentos, divulgada por ele, é lamentável, porque tenta negar fatos por todos presenciados, e porque, assim agindo, incentiva o Black Bloc a continuar se valendo de toda e qualquer manifestação para praticar seus atos criminosos.

O MPL não tem motivos para falar em “brutal repressão policial” e prisões arbitrárias. A PM apenas cumpriu sua obrigação de manter a ordem pública com o rigor correspondente à violência dos black blocs. Sem a intervenção dos baderneiros, a manifestação teria transcorrido pacificamente.

Não apenas não se registrou qualquer excesso da PM, como a Secretaria da Segurança Pública tem razão quando “lamenta que, por meio de seu silêncio, o Movimento Passe Livre endosse os atos de vândalos que depredaram o patrimônio público e privado”.

Acrescente-se que o MPL também não colaborou como deveria – inclusive para cumprir um dever legal – na divulgação prévia do roteiro a ser seguido pela passeata. Essa é a forma civilizada, em qualquer país, de garantir o direito de se manifestar pacificamente. Ou o MPL e qualquer outra organização que deseje realizar atos de protesto seguem essas regras ou se colocam à margem da lei. E de nada adianta o MPL dizer que é diferente do Black Bloc, se na prática acoberta sua ação violenta e criminosa.

É preciso que o MPL decida de que lado está, porque a PM não pode assistir passivamente ao vandalismo e à desordem pública. E o que aconteceu na sexta-feira nada tem a ver com excessos da polícia.

Separar manifestação de depredação, como fez o governador Geraldo Alckmin, é o que a população espera do poder público.

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