Mudança na Argentina

A vitória do candidato da oposição, Mauricio Macri, no segundo turno das eleições presidenciais argentinas traz um pouco de esperança ao país vizinho e à região. Mostra a possibilidade de se vencer nas urnas o populismo irresponsável de quem se apoia no medo, na falta de transparência e nos programas assistencialistas para se manter no poder. No entanto, seria um equívoco decretar a morte do kirchnerismo. A pequena diferença de votos entre os candidatos – menos de 3% dos votos válidos – indica que, apesar de apeado do poder, ele não saiu de cena.

O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2015 | 02h55

Eleito por uma coalizão de centro-direita, Macri simboliza o desejo de mudança do povo argentino, que se mostra cansado e desiludido com a política de Cristina Kirchner. Não é para menos. Depois de 12 anos dos Kirchners no poder, o país encontra-se numa forte crise econômica e social. Crescem a pobreza e o desemprego. A inflação anual está na casa dos 25%. O déficit fiscal supera os 7% do Produto Interno Bruto (PIB). O mercado cambial, até agora fortemente controlado pelo governo, precisa urgentemente ser normalizado. Sobram irregularidades e faltam reservas no Banco Central argentino. E o país ainda não conseguiu chegar a um acordo com os chamados fundos abutres, que litigam contra a Argentina na Justiça americana.

Além das necessárias reformas, nunca enfrentadas pelo populismo dos Kirchners, há o imperativo de um pronto restabelecimento da confiança em relação aos números oficiais do governo. Em fevereiro de 2013, o Conselho Executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) emitiu uma declaração de censura contra a Argentina por desconfiar da qualidade dos dados oficiais do país. Um ano antes, a revista The Economist havia publicado uma nota explicando as razões para excluir de suas publicações aqueles dados. Descaradamente, o governo maquiava suas contas.

Macri significa também a oportunidade de uma nova relação entre Brasil e Argentina. Em artigo publicado no Estado, o presidente eleito afirmou que “o Brasil sempre será minha prioridade. Tenho mencionado muito a necessidade de avançar na direção de uma cultura da cooperação. Não se trata de Argentina ou Brasil. O mundo necessita de ambos. O futuro é Argentina e Brasil. Por isso somos muito mais do que parceiros”. Nos anos de Néstor e Cristina Kirchner, predominou uma relação de desigualdade entre os dois países, com a Argentina fazendo o que bem entendia e o governo brasileiro aceitando resignadamente as estripulias do vizinho.

A vitória de Macri deve facilitar também a negociação de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, além de tornar o bloco mais receptivo à aproximação com as nações da Aliança do Pacífico – Chile, Colômbia, México e Peru. A saída do kirchnerismo da Casa Rosada deve possibilitar também uma mudança de atitude da região em relação aos desmandos do governo da Venezuela, sempre tolerados pelos Kirchners. E pelo governo brasileiro.

As urnas argentinas mostraram que Lula estava certo. Dias antes, havia dito que estava sentindo um “cheiro de retrocesso” na América Latina. Como se afirmou neste espaço, o ex-presidente referia-se “ao desmonte do circo que encantou os incautos nos últimos dez anos, fazendo-os crer que, pela mágica do voluntarismo estatista, as desigualdades seriam superadas, inaugurando-se um período de desenvolvimento igualitário sem precedentes”.

Com as eleições do último domingo, a Argentina deu um valente passo na superação do círculo vicioso do populismo irresponsável, que não tem qualquer compromisso com a realidade. Basta ver as palavras de Cristina Kirchner no primeiro turno: “Cumprimos a promessa: deixamos um país normal”. Agora, no domingo, voltou a reafirmar essa estranha normalidade: “Nunca houve 12 anos com estabilidade econômica e social como a que ofereceram estes governos”. O povo argentino quer outra normalidade.

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