Mudar o mundo

É possível produzir mudanças culturais de alto impacto social. Há razões para otimismo

Nicolau da Rocha Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2016 | 03h03

O fracasso das ideologias do século 20 parece aconselhar prudência na hora de calibrar o patamar dos nossos sonhos sociais. Apostar na possibilidade de profundas transformações sociais seria coisa de gente ingênua ou piegas. O mais aconselhável – insinua a experiência – é manter os pés no chão e não criar grandes expectativas, que, quase sempre, acabam em frustrações.

Diante do desejo de uma sociedade mais justa, às atuais gerações seria permitida, no máximo, a escolha de um bom projeto social, financeiramente sustentável e profissionalmente conduzido sob as regras da boa governança. Esse seria o limite do horizonte transformacional disponível para o mundo contemporâneo.

Certamente os tempos atuais são testemunha de uma revolução do terceiro setor. A incorporação das boas práticas – e de excelentes profissionais – do mundo corporativo proporcionou uma nova perspectiva para a área social, com animadores resultados. Foi superada a mentalidade, tão frequente em outras décadas, de que a condução de um projeto social podia ser menos profissional que a gestão de uma empresa. Nos dois casos – cujas áreas de interseção são cada vez mais amplas – pode e deve haver clareza institucional e excelência operacional.

O novo modus operandi do setor social é, sem dúvida, um profícuo caminho. Mas será ele o único? Todos os nossos sonhos sociais precisam restringir-se ao terceiro setor, cujos avanços são sempre circunscritos a uma específica situação social? É infantil querer ainda mudar o mundo? É ingênuo, por exemplo, sonhar com a possibilidade de um horizonte humano e profissional entusiasmante para todas as nossas crianças?

Essas perguntas não são resolvidas por uma equação matemática. Não é difícil, por exemplo, encontrar argumentos, das mais variadas cores ideológicas, para um ceticismo social. Além disso, todos os que já se envolveram numa causa beneficente têm sua experiência pessoal, com aspectos positivos e negativos. Otimismo e pessimismo não são reações meramente racionais diante da vida. São, antes de tudo, respostas vitais, fortemente moldadas pelas disposições e circunstâncias pessoais.

De toda forma, é muito bem-vindo o esforço racional para fundamentar nossas opções. Nessa tarefa o mundo contemporâneo nos brinda com duas evidências que confirmam cabalmente a possibilidade de profundas mudanças sociais. Existem, sim, razões para otimismo.

Refiro-me às causas do meio ambiente e do casamento gay. Esteja você a favor ou contra, seja liberal ou conservador – mesmo, por exemplo, que não compartilhe o atual consenso de que o princípio da não discriminação exige a aplicação dos efeitos jurídicos do casamento às uniões homoafetivas –, essas duas causas, ao confirmarem a possibilidade de mudanças culturais significativas promovidas a partir de uma estratégia previamente elaborada, são muito inspiradoras.

Elas evidenciam que não há um destino inexorável, no qual a ação humana é irrelevante. Ao contrário, é possível promover mudanças profundas. A experiência dessas duas causas liberta da mentalidade de que os deuses determinam o futuro, como na Grécia antiga. Nos dias de hoje ninguém formula com essas palavras o seu pessimismo social, mas quando se postula uma visão em que o passado e o presente parecem determinar decisivamente o futuro, os efeitos são rigorosamente os mesmos: desesperança com a mudança e tendência à passividade.

A preocupação atual com o meio ambiente é muito maior e mais efetiva do que há 50 anos. Hoje muitas pessoas estão dispostas a abrir mão do bem-estar proporcionado por alguns produtos e serviços em razão tão somente do impacto ambiental negativo que esses produtos e serviços causam. Não se nega que o agravamento das questões ambientais tenha ajudado a mostrar a importância do tema, mas não foi o fator determinante. Houve uma ativa campanha de mobilização e de reenquadramento (reframing) do tema, propiciando a transformação cultural. A maior consciência ambiental não foi simples consequência das condições físicas do planeta. Há décadas muita gente vem batalhando em prol de uma melhor percepção da situação ambiental e da correspondente responsabilidade humana.

Houve e continua havendo fracassos, alguns grandes, na causa ambiental, o que provoca em não poucas pessoas um sentimento de frustração. A visão pessimista, porém, não prospera. Quando se olha o transcorrer das décadas, a causa ambiental é enormemente vencedora, ainda que – nunca é demais repetir – persistam muitos e graves desafios a ser vencidos. O importante não é tanto o placar momentâneo do jogo, mas o fato de que as novas gerações são muito mais responsáveis com o meio ambiente do que as anteriores. A tendência de longo prazo é largamente benéfica à causa do meio ambiente. Semelhante situação ocorre com a causa do casamento gay, com as novas gerações muito mais sensíveis ao enquadramento contemporâneo do tema.

É possível, portanto, produzir mudanças culturais de alto impacto social. Em vez de induzir a sonhar pequeno, o necessário realismo leva a sonhar bem – a vislumbrar não apenas as metas, mas também os meios para alcançá-las. Por exemplo, a causa do casamento gay indica que as transformações sociais não se dão no Legislativo. O ordenamento jurídico de um país é apenas a ponta de um grande iceberg. A transformação social passa, antes e de forma decisiva, por mudanças de sensibilidade e de enquadramento afetivo das questões. Mais do que de dinheiro ou de votos, o sucesso de uma causa depende de uma correta estratégia, isto é, saber aliar os maiores sonhos às melhores e mais adequadas práticas.

Mudar o mundo continua sendo possível. Longe de ser ingênua ou voluntarista, essa afirmação é decorrência do próprio realismo, pois há pessoas, já hoje, mudando o mundo. A desesperança não é uma imposição dos fatos.

*Advogado e jornalista

 

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