Muito além do câmbio

Por tornar mais acentuada a perda de competitividade da indústria brasileira, a valorização do real em relação ao dólar vem despertando reações cada vez mais ácidas de dirigentes empresariais, mas está muito longe de ser o único, ou o principal, problema que prejudica o desempenho do setor manufatureiro. Questões estruturais e modelos de gestão empresarial inadequados têm sobre a atividade industrial efeitos negativos muito mais profundos e duradouros e, por isso, mais nocivos do que a taxa de câmbio.

O Estado de S.Paulo

24 Março 2012 | 03h06

Pesquisas e estudos recentes não deixam dúvidas quanto aos impactos do câmbio valorizado sobre a produtividade da indústria brasileira quando comparada com a de outros países. Mesmo, porém, que a questão cambial venha a ser superada, a qualidade da atividade industrial continuará prejudicada por deficiências históricas, e por isso muito conhecidas, mas que têm sido toleradas por governantes, empresários, trabalhadores e pela sociedade. Sem eliminar essas deficiências, o Brasil terá cada vez menos condições de competir com outros países, inclusive os vizinhos sul-americanos.

A valorização do real fez o custo da mão de obra na indústria aumentar 150% em relação ao custo dos parceiros comerciais do Brasil entre 2003 e 2009, de acordo com um estudo do economista Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, como mostrou reportagem do Estado (18/3). "A produtividade do trabalho teria de ter crescido a uma taxa cavalar para compensar o custo unitário do trabalho", disse o economista.

O câmbio é também o principal responsável pelo fato de a produção industrial no Brasil ter ficado mais cara do que nos Estados Unidos, como mostrou outra reportagem publicada na mesma edição do Estado.

Entre 17 países latino-americanos estudados pela instituição americana The Conference Board, o Brasil ficou na antepenúltima posição em produtividade do trabalhador, medida pela relação entre PIB e pessoal ocupado, de acordo com reportagem do jornal O Globo (18/3). O Brasil ficou à frente de Bolívia e Equador, mas atrás de Argentina, Chile, Colômbia, México, Venezuela e Peru, entre outros países latino-americanos.

O índice brasileiro, neste caso, foi favorecido pela desvalorização do dólar e, por essa razão, mostra que a baixa produtividade do trabalho no País se deve a outros fatores (a valorização do dólar reduziria o PIB nessa moeda e, consequentemente, tornaria ainda mais baixo o índice de produtividade).

Em alguns países mais afetados pela crise global, como os Estados Unidos, a indústria buscou aumentar sua competitividade por meio da forçada redução dos custos de produção, o que implicou demissões em massa. Mesmo com menos trabalhadores, a indústria manteve ou ampliou a produção, alcançando ganhos notáveis de produtividade.

Mesmo que aceitasse arcar com um custo social tão alto, dificilmente o Brasil alcançaria resultados econômicos tão rápidos. O aumento da produtividade do trabalhador brasileiro é limitado, entre outros fatores, pela defasagem nos investimentos em educação. Com escassez de trabalhadores qualificados, exigidos cada vez mais pelo mercado de trabalho, os salários de determinadas funções tendem a subir bem mais do que a produtividade média do setor, o que afeta o preço dos bens finais.

O alto custo da folha de pessoal, em razão dos encargos e das regras rígidas para contratação e demissão, é outro fator decisivo da baixa produtividade do trabalho no Brasil e, na comparação com outros países, seu efeito se torna ainda mais notável por causa da valorização do câmbio. Da mesma forma, o peso excessivo dos tributos e o preço elevado da energia, entre outros itens que compõem os custos industriais, reduzem a competitividade da indústria.

Do lado das empresas, o nível muito baixo de investimentos em inovação mostra despreocupação ou desatenção com um dos fatores essenciais para a conquista e preservação dos mercados mais promissores da economia contemporânea.

Há muitas coisas além do câmbio nas dificuldades pelas quais passa a indústria no País.

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