Mundo, ciência, diplomacia

A velocidade do processo com que a cultura científica da pesquisa básica e aplicada amplia os horizontes do conhecimento e modifica as condições de vida de todos é uma das dimensões constitutivas do mundo contemporâneo. Um dos desdobramentos desse processo, que opera em escala planetária, se traduz na inoperância de padrões tradicionais de orientação para o agir que se tornam inadequados para lidar com a efetiva transposição de barreiras antes tidas como naturais e intransponíveis, de que são exemplos a clonagem e a pesquisa espacial.

CELSO LAFER, O Estado de S.Paulo

15 Março 2015 | 02h03

O ineditismo do potencial destrutivo das armas nucleares, que enseja a viabilidade do extermínio de coletividades, mudou qualitativamente o significado da situação-limite paz/guerra da vida internacional à sombra da qual se conduzia a reflexão estratégica. A bioética surgiu da necessidade de estabelecer novos padrões para lidar com as questões suscitadas pela inovação científico-tecnológica que tornou possível não apenas conhecer, mas agir sobre o corpo humano por meio da plasticidade de uma manipulação transformadora.

É nesse contexto, refletindo sobre os desafios da ordem mundial, que Henry Kissinger, em importante livro recente, destaca que o alcance e o impacto da revolução científico-tecnológica estão mudando as condições de funcionamento do sistema internacional e contribuindo para a erosão da tradicional lógica interestatal e de suas consagradas normas, respeitadora do papel das fronteiras nacionais. Kissinger aponta que o novo mais significativo da atualidade é o incessante crescimento do poder computacional e da tecnologia da informação em todas as esferas da existência. A era digital gerou um ciberespaço que colonizou o espaço físico e permite a ubiquidade do funcionamento de redes que operam na instantaneidade dos tempos, induzindo grandes mudanças na educação, na leitura, no papel das mídias, nas maneiras de comunicação entre as pessoas, na condução das campanhas políticas, no modo de operar das finanças e da economia, na governança pública e privada das instituições, na gestão das crises de toda natureza, na administração da justiça e na maneira de conduzir a política externa e de atuar no campo diplomático.

A técnica e seus instrumentos, que resultam do impacto da velocidade com a qual a pesquisa básica e aplicada vem mudando de maneira generalizada as condições de vida, não determinam a História. Alteram, no entanto, as condições por meio das quais os homens a fazem, como já dizia Raymond Aron em 1976, refletindo sobre a guerra na era planetária. Uma alteração significativa provém do ineditismo do acúmulo de informação e da dinâmica da sua transmissão, que por si só, como pontua Kissinger, não assegura nem o conhecimento nem a sabedoria para nos orientar no mundo em que estamos inseridos. É por essa razão que a ciência - uma atividade internacional, reconhecida como tal desde o Renascimento pelas academias científicas, que incentivaram o compartilhar mais abrangente das descobertas - se insere em novos moldes na pauta da agenda mundial.

A Royal Society da Grã-Bretanha em documento de 2010 explorando a pauta da ciência na política externa destaca três vertentes: a do papel da ciência no embasamento de decisões de política externa - é o tema da ciência na diplomacia; a diplomacia da ciência, voltada para facilitar os acordos de cooperação internacional, e a ciência em prol da diplomacia, como meio próprio de aprimorar a convivência internacional.

Os desafios da ordem mundial e suas tensões, como mudanças climáticas, insuficiência de recursos energéticos, oferta de alimentos, redução da pobreza, governança da internet, escassez de água, são alguns dos temas que tornam imperativa a presença da ciência na ação diplomática.

Na minha experiência como chanceler, dei-me conta da relevância da contribuição da ciência no embasamento de decisões de política externa no trato, por exemplo, da agenda do meio ambiente e das negociações do desarmamento.

Em outra vertente, destaco que a pesquisa no mundo globalizado, mais do que nunca, não é territorializada. Tem como uma das suas dimensões a operação em rede da interação de pesquisadores. Daí a intensificação da diplomacia da ciência voltada para acordos de cooperação internacional, inclusive porque a geração do conhecimento não está circunscrita a poucos centros, pois a ciência opera num mundo mais nivelado, que exige mais interconexão de pesquisadores de todas as regiões e procedências. Por isso, o empenho na internacionalização da Fapesp a que me venho dedicando como seu presidente. Dele resultaram mais de cem acordos com universidades, agências de fomento e empresas, que já geraram mais de 800 projetos de pesquisa desenvolvidos em colaboração internacional, aumentando a visibilidade e o impacto da ciência feita em São Paulo. O objetivo é aumentar, com base na reciprocidade de interesses, a capacitação dos pesquisadores de São Paulo em todos os campos, consolidando a vantagem comparativa do valor agregado do conhecimento que singulariza o nosso Estado no País. Assim, pelo seu efeito irradiador na vida nacional, contribuímos para ampliar a capacidade do Brasil de lidar com os seus desafios.

Uma palavra final sobre o papel da ciência em prol da diplomacia. Os pesquisadores compartilham os valores da investigação e dos seus métodos, baseados na racionalidade, na transparência e na universalidade. Constituem uma espécie própria de comunidade internacional integrada transfronteiras, propensa à cooperação, ao mútuo entendimento e à busca de soluções para problemas sociais. São, num mundo fragmentado e permeado de tensões, um ativo diplomático em prol de uma convivência internacional mais pacífica e menos belicosa.

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PROFESSOR EMÉRITO DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA USP, MEMBRO DA

ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS, É PRESIDENTE DA FAPESP

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