Na bagunça, restam os juros

Combater a inflação fica mais complicado quando as contas públicas vão mal e há tanta incerteza quanto à sua evolução no próximo ano. Nessas condições, o mais seguro é conservar os juros em 14,25% ainda por longo tempo e manter uma atitude vigilante. Esta é a principal mensagem contida na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), formado por diretores do Banco Central (BC). A linguagem usada no documento é mais diplomática e mais tortuosa, mas o sentido é inequívoco. Enquanto o governo for incapaz de apontar um rumo claro para suas finanças, o aperto monetário será a única forma de frear a alta de preços e tentar levá-la à meta de 4,5% no “horizonte relevante”, isto é, até 2017. A promessa de atingir a meta em 2016, mantida por muito tempo, já foi claramente abandonada.

O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2015 | 02h55

Pouco depois de publicada essa ata, o Tesouro divulgou as contas do governo central atualizadas até setembro. Um déficit de R$ 20,94 bilhões foi o resultado primário – sem o custo dos juros – acumulado em nove meses. Descontada a inflação, esse déficit foi 24,6% maior que o de um ano antes.

Referências ao mau estado das contas públicas e às incertezas quanto à política fiscal aparecem duas vezes na Ata do Copom. Na primeira, chama-se a atenção para as “indefinições e alterações significativas na trajetória de gerações de superávits primários” e na “sua composição”. Traduzindo: o governo já alterou mais de uma vez as metas e as projeções do resultado fiscal deste e do próximo ano e há muita incerteza quanto à evolução e à composição dos números.

Em seguida: essas mudanças “impactam as hipóteses de trabalho contempladas nas projeções de inflação e contribuem para criar uma percepção negativa sobre o ambiente macroeconômico”. Em linguagem corrente: como projetar a inflação nos próximos dois anos no meio de tanta confusão e de tanta desconfiança em relação à economia?

As dúvidas – quase queixas – são reafirmadas no finzinho da ata. Aí se menciona também a demora maior que a prevista do “realinhamento dos preços relativos”, isto é, da correção dos preços contidos politicamente, como os da eletricidade, e da absorção dos efeitos da valorização do dólar.

A disparada dos preços continua sendo confirmada pelos vários indicadores de inflação divulgados ao longo do mês. Ainda na quinta-feira a Fundação Getúlio Vargas anunciou o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M). A taxa quase dobrou em um mês, passando de 0,95% em setembro para 1,89% em outubro. A variação dos preços por atacado saiu de 1,30% no mês passado para 2,63%. A alta dos preços ao consumidor passou de 0,32% para 0,64%. A dos custos da construção, terceiro grande componente dos IGPs, avançou de 0,22% para 0,27%.

Os preços por atacado foram fortemente afetados pela alta do dólar, mas outros fatores, a começar pelo desajuste das contas públicas, continuam impulsionando a alta de preços e alimentando a insegurança. A desvalorização cambial também é, em grande parte, consequência das incertezas quanto à evolução da crise econômica e dos impasses políticos no Brasil. Os efeitos da crise política também são mencionados na ata, mas aparecem, é claro, meio disfarçados pelo jargão típico dos funcionários de bancos centrais. Há referência, no texto, às “incertezas oriundas do efeito de eventos não econômicos”.

Diante de tanta insegurança e de tanta desorientação, resta ao pessoal do BC cuidar de sua tarefa sem ficar esperando a melhora das contas públicas ou a superação de quaisquer impasses. Em jargão, o recado é o seguinte: “Nesse contexto, o comitê entende que, independentemente do contorno das demais políticas, a política monetária deve se manter vigilante de forma a assegurar o cumprimento dos objetivos do regime de metas”, etc. Que mais pode fazer o Copom, agora, além de manter o aperto da política? Juros altos têm custo elevado para o País e eficiência limitada nas atuais condições, mas uma âncora imperfeita é melhor que nenhuma.

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