Na esquina da Rua Helvetia

Falamos do horror como num debate de auditório, sem entender que é peste e gangrena

*Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2017 | 03h04

A Rua Helvetia, tal qual as adjacentes ou similares na cidade de São Paulo, não é só o núcleo escancarado de um horror a céu aberto que se expande pelo País. O crack e a droga em geral (das “leves” à mais sofisticada das “pesadas”) não constituem apenas uma chaga individual ou social, nem só algo a preocupar pela saúde dos adictos e usuários.

Tampouco essa rua assombra pelo que retrata do marginalismo da sociedade urbana. Ao longo dos séculos – e por diferentes pontos da nossa geografia – vimos cenas de álgida miséria, pobreza, horror e miserabilidade correndo em paralelo à vida. Ou como se disputassem a primazia com o lema de “ordem e progresso” que os positivistas deram à Bandeira e, hoje, são três palavras a esmo.

As cenas de espanto que a televisão vem mostrando ao País, vão muito além da surpresa e da indignação. O brutal e desconcertante é a inadmissível incompreensão de todos – das duas partes que se dizem donas da “solução única”.

Falamos do horror como se estivéssemos num debate de auditório, apegados a pautas e situações gerais, sem entender que aquilo é peste e gangrena, ao mesmo tempo. Que se expande e se multiplica por contágio e, por isso, temos de extirpar imediatamente, a partir do primeiro minuto.

O debate sobre como enfrentar e debelar o horror, porém, envereda pelo lado do preconceito e das ideias preconcebidas.

Tratamos a tragédia como se fosse uma discussão acadêmica. Não entendemos a extrema urgência, nem que aqueles drogados absolutos se tornaram párias. Ou que, neles, a volição e o discernimento foram extirpados pelo crack, ou dilacerados pela maconha intensiva ou pela cocaína e outros narcóticos.

Míopes, muitos não veem que os viciados de todas as ruas Helvetias do mundo vivem num submundo e se habituaram a essa sub condição, sem poder entender que exista outra forma de vida. Nessa miopia, de boa-fé, mas com óptica errônea, chegam a invocar os direitos humanos individuais para evitar ou impedir que sejam transladados compulsoriamente para clínicas especializadas.

Argumenta-se que isso fere a humana dignidade individual de escolha sobre o próprio destino. O enunciado perfeito, porém, é totalmente inadequado às Ruas Helvetias do País e do mundo!

Qual a dignidade maior, senão a vida e o viver em normalidade? Que dignidade tem permanecer 24 horas na calçada, atirado a algo vicioso, ali comendo e descomendo, dormindo e despertando, em permanente busca de centavos – seja esmola, furto ou roubo –, alheio a tudo, sem nenhuma noção do mundo ou do próprio semelhante?

Aquela mente vazia, sem volição, aquele corpo em chagas, infectado por aids ou por doenças transmissíveis que pareciam já não existir – como sífilis e tuberculose –, por acaso deve permanecer assim em nome de suposta dignidade de escolha individual de um futuro que não existe? Pode ser comparado tudo isso a algum tipo de vida, mesmo ao pauperismo extremo?

Por que a sociedade paulistana e paulista nunca se pôs de acordo sobre uma situação penosa e humilhante, visível a olho nu?

O populista estilo fanfarrão do prefeito paulistano talvez ajude a explicar que setores lúcidos e avançados tenham criticado e oposto objeções à correta ideia (ou decisão) de retirar esses párias da rua e interná-los em clínicas especializadas, para tratá-los como enfermos, sem vê-los apenas como marginais, prostitutas e assaltantes. As melhores cabeças da área médica, jurídica e sociológica jamais foram consultadas. E quando opinaram, o poder público municipal viu neles simples opositores partidários, sem entender que a droga e o narcotráfico são algo tão pungente que supera as pequenezas do cotidiano.

O tom demagógico do velho populismo ademarista dos anos 1950 (que às vezes tenta renascer) esqueceu-se de que o quadro brutal que a Rua Helvetia exterioriza exige uma ação conjunta e coordenada de diferentes áreas públicas do Município, do Estado e da União, das universidades, das igrejas e até do pequeno comerciante da esquina. E que tudo parte da avaliação médica. A partir da avaliação clínica, é a sociedade, como tal, que deve acolher o enfermo num plano concreto. E não apenas para “ajudar” ou “minorar”, mas para resgatá-lo para a vida e o trabalho.

Em vez disso, a internação compulsória foi interpretada como atribuição do burocrata municipal, de um “monitor” ou que nome viesse a ter. De fato, um recrutador de cadáveres vivos a serem enviados para depósitos humanos. Sim, pois a imprensa descobriu que as clínicas apontadas pela Prefeitura não tinham especialidade alguma em qualquer tipo de tratamento. Ou eram velhos imóveis sem ninguém qualificado para atender sequer um resfriado.

A falta de debate e diálogo que caracteriza a vida político-partidária se trasladou para a situação dos drogados moradores de rua. E despontaram as desconfianças. O Ministério Público e associações de direitos humanos chegaram a se perguntar se a urgência em evacuar a rua e terrenos adjacentes não escondia uma manobra de especulação imobiliária. Há boatos ou indícios sobre planos de construir imenso centro comercial na área a ser reurbanizada, o que explicaria a extrema pressa, abortada pela decisão judicial.

Assim, o que mais assombra naquela esquina de rua não é apenas o marginalismo, mas a persistente pequenez de nossas elites, incapazes de se despirem do fanatismo dominante na política, ou na partidarização da política. Despreocupados com a realidade, optamos pelo preconceito – pela ideia fixa anterior ao fato, pela teoria (ou ideologia) antepondo-se ao concreto. Ou, até, usando tudo isso como disfarce para esconder mesquinhezes em busca de dinheiro fácil.

Cada vez mais, tem-se a impressão de que os crimes descobertos na Lava Jato estão em todas as esquinas, a começar pela Rua Helvetia.

*Jornalista e escritor, prêmio jabuti de literatura em 2000 e 2005

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