Nada muda para a Palestina

Parece haver um grande mal-entendido sobre o resultado das eleições da terça-feira em Israel. O problema está no que significam no país os termos que designam em toda parte, desde a Revolução Francesa, as categorias políticas usuais - direita, centro, esquerda e os extremos nos polos do espectro. Aplicados à sociedade israelense, esses conceitos são interpretados no exterior em primeiro lugar à luz das suas opiniões e atitudes diante do direito (ou não) da população palestina à soberania, em um país próprio ou em um Estado binacional. Isso pelo simples motivo de que, desde a sua fundação em 1948, Israel interessa ao mundo praticamente apenas em virtude do seu conflito com os palestinos e a esfera árabe-muçulmana em geral.

O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2013 | 02h13

Foi dessa perspectiva que se previa que Israel iria ainda mais para a direita depois do pleito antecipado pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu - o qual imaginou que, dada a sua popularidade pessoal, o governo de coalizão do seu partido Likud com o Yisrael Beiteinu (Israel, Nosso Lar), do então chanceler Avigdor Lieberman, ampliaria a sua base parlamentar. O prognóstico se baseava na formidável ascensão nas pesquisas de um novo ator político, o empresário Naftali Bennett, ex-chefe de gabinete de Netanyahu, criador do partido Bayit Yehudi (Lar Judaico). Ele se notabilizou não só por sua estridente oposição a um Estado palestino, mas por pregar a anexação ao "lar judaico" de 60% do território da Cisjordânia. É o representante político por excelência dos colonos que se multiplicam sem cessar nas áreas sob ocupação desde a guerra de 1967.

Netanyahu até hoje se guardou de dizer tamanha enormidade, mas, incentivando como nenhum outro de seus antecessores a expansão dos assentamentos, virtualmente acabou com o projeto de uma Palestina ao lado de Israel, a que dera fingido apoio uma vez, em 2009, só para aplacar a Casa Branca de Barack Obama. É coerente com a plataforma do Likud, que chama as terras da margem ocidental do Jordão pelos nomes bíblicos - Judeia e Samaria - e as considera parte natural de Israel. Já entre Bennett e Lieberman, a única diferença é que o primeiro é religioso e o outro, secular. O que o ex-chanceler diz dos palestinos e do que fazer com eles levou o governo a racionar as suas entrevistas à imprensa estrangeira. Bennett não sai com tiradas racistas, mas proclama: "Basta de negociações. Basta de ilusões. Jamais haverá uma Palestina".

Ele elegeu uma bancada de 11 deputados (em 120), ante os 31 da coligação Likud-Beiteinu. Só que outro nome roubou a cena - dando origem ao engano de que a política palestina de Israel tenderá a mudar para melhor. A estrela da eleição foi um popular jornalista de TV, Yair Lapid, fundador da legenda centrista Yesh Atid (Há Futuro), que estreia no Knesset com uma bancada de 19 membros. Ele se concentrou em atacar a política socioeconômica de Netanyahu e em defender o fim dos privilégios dos religiosos ultraortodoxos, como a isenção do serviço militar. A questão palestina ficou ausente de sua campanha. Lapid encarnou as reivindicações que levaram 500 mil pessoas às ruas de Tel-Aviv em meados de 2011. Conquistou, portanto, o voto de protesto.

É fato que também o Meretz, partido de esquerda pró-Palestina, se deu bem nas urnas, dobrando a sua bancada de 3 para 6 parlamentares - prova de sua desimportância. O elevado comparecimento (2/3 do eleitorado), o maior dos últimos 10 anos, se explica igualmente pelo peso da agenda doméstica - os assuntos de "copa e cozinha" da vida cotidiana. O que detonou as manifestações de 18 meses atrás em Israel foi a alta dos laticínios.

A dura verdade é que a maioria dos israelenses, embora 52% digam apoiar em tese a solução dos dois Estados, tem em relação ao seu problema congênito uma de duas atitudes. Ou acham que tudo está bem como está, com os palestinos praticamente invisíveis por trás da infame barreira de segurança erguida entre Israel e Cisjordânia, separando populações locais umas das outras; ou acham que tudo só ficará bem quando se consumar o projeto do Grande Israel, com a transferência dos palestinos para o que seria o seu verdadeiro país, a Jordânia.

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