Nada será como antes, amanhã ou depois

Quem acompanha no dia a dia o noticiário internacional e nacional da atualidade política, econômica e social não tem como escapar da sensação de estarmos perdidos em meio a um tiroteio gigantesco, sem vislumbre de um caminho seguro. Por aqui a impressão, além disso, é de uma corporação política descolada da realidade e da magnitude dos problemas, cuidando apenas dos interesses específicos e imediatos desta ou daquela porção do eleitorado que lhe interessa, para garantir a próxima eleição - quando não se trata mesmo de interesses financeiros pura e simplesmente.

Washington Novaes, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2014 | 02h07

Ainda há poucos dias o Senado aprovou a criação de mais de 20 municípios no País, com população mínima de 20 mil habitantes no Sudeste e no Sul, 12 mil no Nordeste, 6 mil no Norte e no Centro-Oeste. E que ganharão essas novas unidades da Federação que já não pudessem ter como parte de outros municípios? Simples: participação no Fundo dos Municípios, recursos para obras, talvez para empreiteiras que financiem campanhas eleitorais.

Tudo como sempre, num país que experimenta mudanças vertiginosas - como lembrou em artigo neste jornal (9/3) o ex-ministro Pedro Malan, ao enfatizar que em 60 anos a população brasileira teve aumento de 160 milhões de pessoas. Fazem parte desses números assombrosos os futuros 42 milhões das Regiões Metropolitanas de São Paulo e Rio somadas - mais que toda a população do Canadá de hoje, que não chega a 40 milhões, embora seja o país com o segundo maior território, quase 10 milhões de km2; tem pouco mais habitantes que a população rural brasileira atual, em torno de 30 milhões.

E nós ainda vamos crescer mais, até chegarmos perto de 230 milhões, segundo o IBGE (Estado, 30/8/2013), e só deixaremos de crescer daí por diante, para atingirmos 218,1 milhões em 2060. Mas quem está planejando o futuro de um país que, nesse ano, precisará ter três pessoas trabalhando para sustentar duas crianças e um aposentado? Quem no mundo político estará pensando que agora já temos uma taxa de desemprego entre jovens extremamente alta, e poderá crescer mais? Quem já planeja calculando que em 2030, em São Paulo, haverá mais idosos (21,4% da população) que jovens (13,8%)? Quem pensa, a propósito de idosos, nos absurdos índices de reajuste de aposentadoria para quem recebe mais que um salário mínimo - e vai vendo seus rendimentos decrescerem proporcionalmente de ano para ano, há décadas? Como viverão esses idosos? Como ajudarão os jovens?

Melhor voltar a atenção para o mundo como um todo. E lembrar que, conforme a ONU, vamos passar a 9 bilhões de pessoas em 2050, com a maior parte do crescimento populacional nos países menos desenvolvidos. Neles, a imensa maioria estará nos países mais pobres, onde mais aumentará a população - e hoje já há mais de 1 bilhão de pessoas em pobreza extrema, mais de 800 milhões passando fome, mais de 150 milhões de crianças, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), com atraso no crescimento; e ainda se passará para 2 bilhões de miseráveis no mundo.

Como prover de terras o indispensável crescimento da agricultura de alimentos, com a desertificação aumentando 60 mil km2 por ano? Onde obter mais água, se a agricultura já usa 70% dos recursos disponíveis? Que fazer com a pecuária, na qual está parte considerável da emissão de metano, que contribui para mudanças do clima? Levar o mundo a ter um telefone celular por pessoa, quase 50% ligados à internet, em 2014, em nada beneficiará a equação, com três quartos do planeta vivendo em cidades, mas paralisados - como nas metrópoles brasileiras - pelos congestionamentos de trânsito.

Precisamos com urgência de novas estratégias, modernas, compatíveis com os tempos que teremos de enfrentar. A começar, no Brasil, por uma que privilegie nossa situação excepcional em termos de recursos naturais, recursos hídricos (mais de 10% do total do planeta), território. Mas uma estratégia que nos leve também a ter planejamento e ações adequados para enfrentar mudanças climáticas, que já provocam eventos problemáticos em mais de metade dos municípios.

Tudo isso exigirá, internamente e no plano global, uma nova ética, que nos conduza a uma nova economia, elimine o desperdício, a desigualdade escandalosa entre países, segmentos sociais, indivíduos. Não bastará confiar em que reduzir a população bastará ou bastaria. A taxa de natalidade brasileira já é inferior à taxa de reposição. Com o aumento da expectativa de vida e o grande número de mulheres em idade fértil, não se encontrará o equilíbrio apenas por aí.

Nada disso, entretanto, parece interessar a nossas campanhas políticas, eleitorais. Onde estão, por exemplo, planejamento e recursos para eliminar nosso escabroso panorama em matéria de saneamento básico, com quase 40% dos brasileiros sem terem suas casas ligadas a redes de esgotos, quase 10% sem água encanada? Onde está a solução para lixões, onde vão parar pelo menos 50% dos resíduos? Onde a adequação do sistema de saúde, em todos os níveis? E a educação? Não é para isso que se elegem governantes e legisladores?

E ainda não sabemos como fazer com a perda de valores "tradicionais", coletivos ou pessoais. Não se trata apenas de saber se eram "válidos" ou não. Mas nada se está pondo no lugar. O coletivo é substituído pela internet, que aponta para necessidades imediatas, específicas, grupais, sem projetos políticos. Os valores individuais simplesmente são trocados pela vontade momentânea dos indivíduos. Como ter projetos políticos coletivos?

Mas não há como escapar. É fundamental saber que tudo vai mudar no mundo, queira-se ou não, goste-se ou não. "Sei que nada será como antes, amanhã ou depois de amanhã", já disseram Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. É preciso correr.

Jornalista

E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

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