Não deu certo, como previsto

O estado lastimável em que se encontram os hotéis que recebem os viciados em crack, integrantes do programa De Braços Abertos, mostrado em reportagem do Estado, foi ignorado pelo balanço altamente positivo de um ano dessa iniciativa divulgado em janeiro pela Prefeitura. Fingir que esse aspecto importante e desabonador não existe só pode ser uma tentativa do governo Fernando Haddad de tentar a todo custo salvar um programa que nasceu e continua polêmico.

O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2015 | 02h08

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o "fluxo", como é chamada a cena composta pelos usuários de drogas nas ruas, se concentra atualmente na região formada pela Alameda Cleveland com a Rua Helvétia e imediações. Dele participam em média 300 pessoas por dia, o que representa uma redução de 80% do que existia há cerca de um ano. A segurança melhorou consideravelmente - acrescenta -, com a redução de índices de criminalidade.

E os cadastrados no De Braços Abertos, hoje mais de 450, são acompanhados por equipes de assistência social, saúde, cultura, esporte e lazer da Prefeitura. Além disso, de acordo com as diretrizes do programa que busca promover sua reabilitação, eles recebem remuneração de R$ 15 por dia por serviços de limpeza, participam de atividades de capacitação e recebem três refeições diárias e vagas em hotéis da região.

É no último item, que trata da moradia, que se revela o outro lado do programa, em flagrante contraste com a visão cor-de-rosa apresentada pela Prefeitura. A situação nos sete hotéis que abrigam os viciados é desastrosa. O roubo de tudo que pode servir como moeda de troca por pedras de crack se generalizou - chuveiros, colchões, roupa de cama, fiação elétrica, lâmpadas, fechaduras, batentes de portas e até vasos sanitários. Pertences pessoais dos moradores também não escapam - roupas, relógios, celulares. Nada parece a salvo dos viciados em seu desespero para conseguir droga.

As coisas não param aí. As condições de higiene são péssimas. A reportagem presenciou num dos hotéis o consumo de crack em quarto onde se acumulava uma montanha de lixo. Em outro quarto, onde dormem quatro pessoas, parte do teto cedeu e o reparo ainda não foi feito. Uma beneficiária do programa, que trabalha na limpeza de um dos hotéis, afirma que, dos 34 hóspedes, "a maioria não se dedica, fica na rua e só volta para dormir uma vez por semana". Mas a seu ver o pior é a falta de higiene.

Não são apenas essas condições degradantes dos hotéis que atestam a situação difícil em que se encontra o programa, após um ano de vida. Elas são acompanhadas pelas evidências de que, na maior parte dos casos, o consumo de drogas pelos participantes do programa continua igual ao de antes. O testemunho de um deles, que divide o quarto com outros dois, é eloquente sobre como a engrenagem incentiva o vício: "Não sou mais usuária de crack, mas acabo usando. Fica difícil parar vendo outras pessoas fumando perto de você".

As críticas feitas desde o início ao De Braços Abertos estão se revelando procedentes. A remuneração pelo trabalho de limpeza, iniciativa bem-intencionada para incentivar a recuperação dos dependentes, poderia, ao contrário, facilitar ainda mais o consumo. Isto está acontecendo em muitos casos. A concentração e proximidade dos dependentes nos hotéis também tinha tudo para tornar difícil abandonar o vício. Como tudo indica, isso está igualmente se confirmando.

A Prefeitura considera reajustar o pagamento feito aos hotéis para abrigar os dependentes inscritos no programa. O valor mensal por hóspede passaria de R$ 480 para R$ 500, como forma de compensar os prejuízos causados pelos roubos e para melhorar as condições de higiene e segurança dos hotéis. Isso é tapar o sol com peneira. Mantidas as regras atuais, o mais provável é que tudo se repita.

O que se espera da Prefeitura é que aprenda com a experiência e faça uma profunda reavaliação do programa, com coragem para abandonar diretrizes e conceitos que se revelaram equivocados.

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