Eraldo Peres / AP
Eraldo Peres / AP

Não vai dar tempo

Na falta de uma bancada oposicionista, o governo zomba da sorte e cria suas próprias mazelas

Luis Eduardo Assis, O Estado de S. Paulo

29 de abril de 2019 | 05h00

A esta altura, todos estamos exaustos da constatação diária de que o governo combina, em doses inéditas, ingenuidade, despreparo e falta de convicções. Trata-se de caso raro de autocombustão. Na falta de uma bancada oposicionista, o governo zomba da sorte e cria suas próprias mazelas. Bolsonaro não é liberal; nem o seu contrário. Suas opiniões sobre economia – e ele as tem – são pequenos apanhados esparsos de insensatez corporativista. O presidente até mesmo ameaçou abandonar a reforma da Previdência na roda dos expostos, acreditando que o Congresso a adotaria. O governo não reconhece seus próprios interesses e prioridades. Até aqui não há novidade, tá o.k.?

A novidade é que existe uma clara incompatibilidade entre a inépcia com que se arrasta a negociação política para aprovação da PEC da Previdência e a rapidez da deterioração das condições econômicas. A agenda econômica do governo é maximalista. Não peca por falta de ambição e prevê reconstruir o País para que tenhamos décadas de crescimento sustentado. Ignora, no entanto, que o capital político para sustentar tamanha transformação está vazando pelo ralo. Dilma Rousseff tomou posse no início de 2015 com 6,4 milhões de desempregados. Quatro anos depois, enquanto Bolsonaro desfilava no Rolls-Royce conversível 1952, o IBGE registrava 12,2 milhões de pessoas desocupadas, quase o dobro. Desde então, piorou.

Em fevereiro deste ano, o total de desocupados alcançou 13,1 milhões. Para os trabalhadores felizardos que têm carteira assinada a vida também ficou mais difícil. Foram mais de 43 mil vagas fechadas no mês passado, contrastando com o saldo positivo de 56 mil vagas abertas em março do ano passado. A economia ameaça andar para trás. A previsão de crescimento do PIB de 2019 coletada pelo Banco Central começou o ano com 2,5%. Já era menos que espetacular, mas vem sendo reduzida todas as semanas e se aproxima do medíocre 1,1% que tivemos no ano passado.

A questão é que estes dois pontos estão conectados. Com a atividade econômica travando e o desemprego em alta, a aprovação de medidas impopulares, como a reforma da Previdência, exigirá uma capacidade de negociação política maior – justamente o artigo que está em falta. A ausência de solução para problemas imediatos poderá impedir a solução de problemas estruturais.

É preciso uma agenda de medidas de emergência. Algo que possa comprar tempo para que o governo tenha oportunidade de, quem sabe, aprender a fazer política. A resignação dos 13 milhões de desocupados é finita e ninguém é capaz de prever quando a esperança se transformará em desencanto, o desencanto em raiva e a raiva em revolta. Não é simples, mas há alguma margem de manobra.

O governo já desperdiçou uma chance ao preferir o 13.º do Bolsa Família, em detrimento de um simples aumento na mesma proporção nos pagamentos mensais, que anteciparia o benefício. Mas há, ainda, espaço para estimular o crédito. O comprometimento da renda das famílias com serviço da dívida caiu para 19,8%, o menor porcentual desde fevereiro de 2011. A relação crédito/PIB, que bateu 54% no final de 2015, caiu para 47% no segundo semestre de 2017 e lá ficou atolada até hoje. Há condições de o Banco Central cortar não só a taxa Selic, como estimular o aumento do crédito mediante a redução dos depósitos compulsórios, o que poderia ser condicionado à efetiva expansão dos empréstimos. Não é medida de castiça origem ortodoxa, mas é preciso arriscar. Se nada for feito, a deterioração da renda e do emprego poderá erodir ainda mais a popularidade do governo e criar um clima adverso à tramitação das reformas. O futuro, grandioso ou não, começa agora. Quem espera nunca alcança.

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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