Nau à deriva

O Brasil assemelha-se a uma nau à deriva sob intensa tormenta, sem saber para onde ir nem ter nenhuma orientação. O timoneiro, no caso, timoneira, envolta em suas fantasias, já não consegue perceber a realidade e, sobretudo, a sua gravidade. Sua maior preocupação é a própria sobrevivência, tudo o mais e todos os outros – a saber, a totalidade dos cidadãos deste país – são simplesmente mandados às favas.

DENIS LERRER ROSENFIELD, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2015 | 02h55

Seus auxiliares imediatos, seus assessores, compartilham a mesma visão enevoada, vendo nas ondas que se agigantam e no furacão que se aproxima um claro céu de brigadeiro. Olham o “sol”, como se ele se oferecesse naquele momento. Juntos, todos olham o inexistente e fecham os olhos para a triste realidade. E a nave vai soçobrando.

Triste a situação vivida pelos brasileiros. Acreditaram, em sua metade, num discurso eleitoral, melhor, eleitoreiro, que tudo fez para encobrir a realidade, para que a tormenta que se aproximava não fosse vista. Foram, depois, com os demais, lançados dentro de um furacão.

A timoneira da ilusão nada mais fez senão afundar a si mesma em discursos desconexos, frases sem sentido, como se assim o feito não tivesse sido feito, o encoberto não tivesse sido descoberto. A desesperança, a desconfiança e a falta de expectativas terminaram por atingir todos os habitantes deste país.

E o que é proposto? Um arremedo de ajuste fiscal, com base na criação de um “novo” imposto, a velha CPMF, que nada mais é do que um arranjo provisório para maquiar contas estouradas e que continuarão a estourar se verdadeiras reformas não forem empreendidas, como a da Previdência. E mesmo essa medida tem pouquíssimas chances de ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Aliás, no mundo da sobrevivência, mesmo esse esquálido ajuste fiscal passou a segundo plano. Quase já nem se fala dele. Foi literalmente substituído pela tentativa presidencial de evitar o impeachment.

A nave afundando e a timoneira só preocupada consigo, em como vai sobreviver, mesmo se o custo disso for o País, que pode ter prolongada a sua agonia por ainda três longos anos, o que pode hipotecar o futuro das próximas gerações.

No meio da tormenta, contudo, a timoneira ganhou certo fôlego, embora a tempestade não vá amainar. Ao contrário, só tende a aumentar. E quanto mais durar a agonia, piores serão os seus efeitos futuros.

A decisão de dois ministros do Supremo de suspender o ritual do impeachment como estabelecido pelo presidente da Câmara dos Deputados foi inicialmente interpretada pelo governo e por jornalistas e analistas mais afoitos como uma suspensão do impedimento enquanto tal. E não como deveria ser, a saber, somente da aplicação do regimento da Câmara para dirimir eventuais questões, como a de eventual recurso ao plenário.

Na verdade, o poder monocrático do presidente da Câmara dos Deputados foi reforçado, pois cabe a ele, solitariamente, decidir pelo acolhimento ou não de um pedido de impeachment, encaminhando-o, então, a uma comissão especial a ser criada. Ele é, segundo a Constituição e a Lei do Impeachment, o senhor dessa decisão.

Acontece que – por causa da Lava Jato e dos seus desdobramentos no Supremo Tribunal Federal – o deputado Eduardo Cunha está também navegando sob intensa tormenta, preocupando-se exclusivamente com a preservação de seu mandato, que lhe dá foro privilegiado num julgamento que se avizinha. Tudo fará para sua própria sobrevivência.

O governo dança ao ritmo de seus passos! E para ele, quanto mais se prolongar esse impasse, melhor, pois terá de enfrentar o Conselho de Ética, no qual haverá uma nova configuração entre seus “amigos” e “inimigos”. Eis o fôlego do governo!

E o Brasil? Este sucumbe à falta de governo e à incerteza generalizada. O cenário econômico só tende a piorar, não havendo nenhuma sinalização de melhoria. Decisões necessárias ou são ignoradas ou foram relegadas ao limbo. Reformas estruturais nem chegaram a entrar na ordem do dia. Não há, no curtíssimo prazo, nem decisão favorável nem desfavorável ao impeachment, o que faz com que os agentes econômicos só posterguem suas decisões. O impeachment só se delineará mais claramente em algumas semanas.

Acrescente-se o fato de o ministro Joaquim Levy perder crescentemente apoio, com o PT nem mais se preocupando em guardar as aparências e passando a pedir abertamente a sua demissão. O próprio presidente Lula está seguindo essa tendência, advogando pelo populismo que levou o País a este descalabro. Sem definição política não há definição econômica. As perspectivas são, nesse sentido, sombrias.

Tudo deveria ser feito para que a atual tormenta não dure até as eleições de 2018. Mesmo que lá, naquele longínquo momento, novos ganhadores venham a conquistar o poder, o País estará em posição ainda mais claudicante. Não haverá o que comemorar e o novo governo terá pela frente uma duríssima situação. Quanto mais as decisões tardarem, pior será o descalabro. O bom senso exige que esse cenário seja abreviado.

Para que ele se torne factível seria necessária uma reconfiguração político-partidária, com o vice-presidente, Michel Temer, assumindo a Presidência da República. A presidente se afastaria, uma nova agenda nacional seria elaborada e apresentada à Nação, encarando os problemas com realismo. O discurso da ilusão deveria ser substituído pelo do sacrifício.

Nesse cenário, o melhor seria que tal processo fosse o resultado de uma articulação política, que pusesse o futuro do Brasil acima de qualquer disputa partidária. O desprendimento teria de ser o seu vetor principal, com os partícipes então disputando o poder, entre si se for o caso, em 2018, já então com um país reformado, pois teria feito as reformas e os ajustes imprescindíveis. O momento exige pessoas com o perfil de estadista, e não meros oportunistas de ocasião.

* DENIS LERRER ROSENFIELD É PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS. E-MAIL: DENISROSENFIELD@TERRA.COM.BR

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