Necessária repaginação

O final de ano trouxe uma notícia ruim para a Amélia e o Luiz Cláudio H., para eles o Natal se aproximou em tons sombrios. É que a Mariana fora reprovada já na primeira fase do vestibular da Unicamp. Garota linda, inteligente e estudiosa, leitora voraz da alta literatura, verdadeira Rory Gilmore de Barão Geraldo, a Mariana era, aos olhos dos pais e dos amigos, uma aposta quase certa para a concorridíssima Faculdade de Medicina. Lúcidos, seus pais sabiam que ninguém, nem mesmo a Mariana, tinha lugar garantido naquela faculdade, em cujo vestibular costumam aglomerar-se cerca de cem candidatos para cada vaga oferecida. Mas a eliminação já na primeira fase teve esse caráter desconcertante. Afinal, não é a primeira fase aquela destinada à eliminação dos paraquedistas totais e dos insuficientemente preparados, aos quais se recomenda que estudem muito mais e voltem no ano seguinte?

Sebastião de Amorim, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2010 | 00h00

Com janeiro vieram os resultados da Faculdade de Medicina de Pinheiros, da USP, e, adivinhem... deu a lógica. A Mariana estava lá, na primeira lista de convocados para aquele outro ícone dos vestibulares nacionais. Barão Geraldo perdeu sua Rory Gilmore, mas a alegria retornou à família H. ainda a tempo de salvar o resto do verão.

Vestibular é assim mesmo, nunca classifica com exatidão os candidatos. Seus resultados combinam lógica e loteria. Alguns, contudo, são piores do que outros e casos como o da Mariana são muito mais comuns e generalizados do que se imagina, embora nem todos com final igualmente feliz. E quanto mais curta a prova, quanto menos abrangente a cobertura do programa oficial, maior a influência do fator sorte. Assim, a primeira fase eliminará muitos dos melhores candidatos, abrindo espaço para outros, provenientes dos quartis inferiores, com sérios prejuízos para a instituição, que se vê privada do acesso a alguns dos melhores estudantes, e cruel injustiça para com muitos dos candidatos mais bem preparados.

De outro lado, o Enem - criado, há 12 anos, com objetivos ambíguos e, de qualquer forma, com propriedades estatísticas incompatíveis com quaisquer que fossem aqueles objetivos. Sua estrutura e a forma de aplicação impediam, e ainda impedem, a utilização de seus resultados seja para a construção de indicadores de qualidade do sistema nacional de ensino básico, seja como elemento de avaliação e classificação de escolas. Sua não-aderência a um padrão estável através dos anos desautoriza a análise de tendências do sistema nacional de educação básica pela comparação de seus resultados em anos sucessivos. Tentativas nesse sentido levarão a conclusões equivocadas.

É verdade que, no formato atual, ele avalia bem o indivíduo. A falta de uma associação consistente ao programa oficial dos 12 anos do ensino básico, contudo, desqualifica essa avaliação. Diz-se que os testes de QI medem a habilidade do indivíduo em realizar testes de QI; o frouxo atrelamento da prova do Enem ao programa oficial do ensino básico o faz vulnerável a insulto análogo. O fato é que o Enem carece de estrutura estatística e esquema amostral compatíveis com sua enorme importância potencial.

Com um custo anual que supera em muito a marca dos R$ 100 milhões; concebido e operado por instituições competentes, movidas pelas mais sinceras boas intenções, e objetivando atuar, como instrumento metrológico eficaz, sobre o universo do sistema nacional de ensino básico, tão carente de instrumental metrológico adequado, o Enem demanda urgente e substancial repaginação.

Agora, numa comparação direta entre as provas do ano passado do Enem e da primeira fase da Unicamp, escancara-se a ampla superioridade da primeira como instrumento para ordenação de um grupo de candidatos por nível de conhecimento. Com questões elegantemente formuladas, nossa primeira fase é curta demais. Com apenas 12 questões mais a redação, ela se posiciona em flagrante desvantagem ante as 180 questões mais redação do Enem 2009.

É agosto. Abre-se a temporada dos grandes vestibulares nacionais. A pré-seleção para a USP, Unicamp, UFRJ, UFMG, UnB, UFPE, UFRGS, ITA, IME e demais grandes escolas nacionais poderia ser feita pelo Enem, com sólida economia e enormes ganhos de qualidade. O aluno inscrito em qualquer desses vestibulares estaria automaticamente inscrito no exame nacional. As notas de corte seriam determinadas, a posteriori, por cada faculdade, de acordo com o desempenho de seus candidatos e com a parcela destes a receber o salvo-conduto para a fase seguinte e decisiva.

A necessária repaginação do Enem terá de envolver essas escolas. Com a pré-seleção unificada, em pouco tempo a capilaridade dos sistemas de recrutamento das universidades se estenderia sobre todo o País, com ganhos previsíveis para todos. A conquista de um grande exame nacional, ao mesmo tempo estágio de pré-seleção dos vestibulares e instrumento eficaz - espelho microscópico - de monitoração contínua do catastrófico sistema nacional de ensino básico, teria significância histórica, como a Embratel, que, nos anos 70, transformou a micronésia que era a telefonia nacional num sistema moderno, integrado, eficaz.

O maior ganho, contudo, será outro. A trama causal da desconcertante elitização econômica do ensino superior de qualidade no País deságua na autoexclusão que o aluno pobre se impõe ao assumir: "A USP não é para o meu bico, mano!" A integração do processo seletivo por meio de um grande exame nacional criará um referencial nacional comum. Fico pensando na reação mental de um garoto pobre da periferia da Nação que sempre sonhou com aviões, ao verificar que sua nota no Enem o teria colocado, com folga, na segunda fase da Engenharia Aeronáutica do ITA.

PROFESSOR DE ESTATÍSTICA NA UNICAMP E DIRETOR CIENTÍFICO DA TECNOMETRICA, É PAI DE DOIS UNIVERSITÁRIOS E UM VESTIBULANDO. ESTUDOU NO ITA. E-MAIL:

AMORIM@TECNOMETRICA.COM.BR

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