Notas de um velho marinheiro

Aspereza de 2019 nos levará a preocupações mais concretas que as do período transitório

Fernando Gabeira, jornalista

14 de dezembro de 2018 | 04h30

Este é o meu último artigo do período de transição. No ano que vem a coisa começa. É hora de a onça beber água, a cobra fumar, o tatu sair da toca. Termina uma longa experiência em que predominaram ideias de esquerda, começa uma experiência liberal conservadora, de certa forma inédita, pois sempre se definiu assim, sem subterfúgios.

Um dos truísmos mais presentes na política é afirmar que nem sempre as coisas acontecem como planejado por seus atores. Em alguns casos podem até se transformar no oposto do desejado.

O projeto político iniciado em princípio de 2003, com a vitória de Lula, pretendia levar o Brasil a um novo patamar de liberdade e justiça social. Terminou em crise econômica, milhões de desempregados e alguns atores, o principal incluído, atrás das grades.

Durante muitos anos estudei o marxismo e constatei, na prática, a inadequação de suas teses. Talvez por temperamento, desde a juventude sempre tive um pé atrás com a ideia de que a História é regida por leis inflexíveis e obedece a um script inevitável.

Quando ouvia as pessoas repetirem o slogan cubano “até a vitória sempre”, costumava responder: sempre que possível. 

Era uma abertura para o inesperado, no fundo uma rebeldia contra um mundo pré-desenhado, um cemitério da criatividade humana. Minhas críticas e revisões das ideias de esquerda me valeram algumas antipatias. Nada de grave. Foi possível continuar pensando e escrevendo num clima quase razoável.

Possivelmente, em alguns momentos, vou desagradar aos liberais conservadores. Mas o que fazer? A alternativa seria concordar com uma euforia que a longa experiência não autoriza.

De modo geral, faço perguntas, não acusações. Uma das perguntas-chave que faço aos conservadores que chegam ao poder com a esperança de propagar sua fé cristã é: não estão chegando tarde demais a um mundo secularizado, onde a tradição e a cultura não podem ser apoiadas numa fé transcendental compartilhada?

Uma das referências que tenho é a passagem de Margaret Thatcher pelo governo inglês. Além de sua firme decisão de enfrentar corporativismos, ela manifestou muita simpatia pela moral vitoriana, tempos mais íntegros e felizes, segundo ela. Ao deixar o poder, Thatcher deixou também uma Inglaterra bem mais permissiva do que encontrou.

Aos conservadores brasileiros, para quem o bolo dos costumes desandou, deverá ficar claro que é difícil cozinhá-lo de novo, restando apenas cuidar do que existe, olhando para o futuro. Dito assim, parece complicado. Mas, na prática, é o que está acontecendo. A ministra de Direitos Humanos, Damares Alves, parece ter adotado esse caminho ao afirmar que a união civil gay é um direito adquirido e não vai questioná-la.

Depois de passar muitos anos criticando a miopia marxista diante das questões ambientais, terei a irônica tarefa de demonstrar aos conservadores que a preservação é uma ideia deles que foi introduzida de contrabando no marxismo. Karl Marx sempre partilhou com alguns pensadores burgueses a ideia de um progresso infinito, sem limites objetivos. Se saímos do árido campo das ideias e vamos de novo à prática, basta observar a catástrofe ambiental que foi o socialismo no Leste Europeu, a degradação da atmosfera nas cidades chinesas.

O PT em 2002 ainda acreditava, como os partidos comunistas da esfera soviética, que o principal problema era crescer, dar empregos, melhorar o padrão de vida dos trabalhadores. Estava aí, ainda que incipiente, a raiz das nossas principais divergências.

Compreendo que forças emergentes tenham uma linguagem de sonho, que no fundo almejem a felicidade de seus governados. Mas a História tem mostrado, exceto pelo idealismo do rei do Butão, que dificilmente a felicidade se conquista pela ação de governos. 

Tudo o que se pode fazer é minorar suas dificuldades, ajudá-los a conviver, como diz o poema de Yeats, com a desolação da realidade. 

Quando jovem de esquerda, alguns me irritavam por sua dose de realismo: Raymond Aron, Isaiah Berlin, George Steiner. Eles despiam a revolução de seus figurinos românticos e me deixavam só e desesperançado.

Neste momento em que o Brasil se prepara para viver uma experiência em que a religião tem grande peso, é necessário em primeiro lugar reconhecer a importância dos cristãos em nossa vida e cultura. Mas, ao mesmo tempo, questionar suas certezas políticas, como fazia com os slogans marxistas.

De novo um exemplo para atenuar a aridez. Por que mudar a Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém? O quase consenso internacional reconhece que ainda é uma cidade dividida.

Não foram grandes formulações de política externa que levaram Bolsonaro a essa saída. Há uma pressão evangélica, natural, válida, mas inadequada para comandar uma decisão nacional nesse campo. Para os evangélicos americanos e brasileiros, a extrema direita em Israel tem grande importância.

Os evangélicos não leem a Bíblia apenas como um documento sobre o passado. Confiam também em suas profecias, no seu roteiro para o futuro. E essas profecias dizem que uma das condições para a volta de Cristo é a recuperação pelos judeus da Terra Sagrada.

Não se trata de afirmar que isso seja um delírio, mesmo porque não tenho preconceitos contra delírios. Muitas de nossas políticas são um delírio. No entanto, quando se trata de política externa, é necessário, pelo menos, um delírio consensual.

A ideia de conformar o mundo à nossa fé cristã é de natureza diferente da criação de internacionais socialistas, Ursais e o escambau. Mas pode sofrer o mesmo destino melancólico das religiões laicas num mundo - até certo ponto, irreversivelmente - desencantado.

De qualquer forma, a aspereza do ano que vem vai nos levar a preocupações mais concretas do que as do período transitório, fluido por definição.

*FERNANDO GABEIRA É JORNALISTA

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