Nova chance à paz na Colômbia

O governo da Colômbia anunciou que estão em curso "conversações exploratórias" para retomar as negociações com a narcoguerrilha marxista Farc, com o objetivo de encerrar o quase meio século de conflito no país. A iniciativa pode ser histórica se, conforme declarou o presidente Juan Manuel Santos, ambas as partes tiverem aprendido com os "erros do passado".

O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2012 | 03h08

Alguns desses erros foram trágicos. Em meados dos anos 80, graças ao acordo de paz do governo de Belisario Betancur (1982-1986), guerrilheiros que depuseram armas entraram na vida política normal. O partido União Patriótica, próximo das Farc, obteve desempenho razoável nas eleições de 1986, e daí em diante mais de 3 mil de seus integrantes foram mortos ou desapareceram. A guerrilha e seus simpatizantes acusaram o governo e os paramilitares pelos crimes, atribuídos oficialmente a chefões do tráfico.

No início dos anos 90, enquanto a Colômbia elaborava sua nova Constituição, uma ofensiva das Farc contra os constituintes e a consequente reação do Exército liquidaram o pouco de disposição para negociar que ainda havia na ocasião. Houve reuniões em 1991, na Venezuela, e em 1992, no México, sem nenhum sucesso além da assinatura de compromissos que jamais se concretizariam. A partir de então, as Farc ganharam força graças ao dinheiro obtido com sequestros e com o narcotráfico e exploraram a patente fragilidade do governo, na época chefiado por Ernesto Samper. Na ausência do Estado, quem atacou as Farc foram os paramilitares.

A última tentativa de acordo se deu entre 1998 e 2002, sob a presidência de Andrés Pastrana, que se elegeu com a promessa de alcançar a paz. Pastrana cometeu o erro de dar às Farc uma zona desmilitarizada sem que a narcoguerrilha se comprometesse com uma trégua - ao contrário: ela aproveitou para se fortalecer. É por esse motivo que o atual presidente enfatizou que uma das condições para a retomada das negociações é que a presença do Exército seja mantida "em cada centímetro do território nacional", sem nenhuma garantia de cessar-fogo.

A iniciativa da atual retomada do diálogo foi das Farc, sob o patrocínio dos governos da Venezuela e de Cuba, que ajudam a sustentar a guerrilha. José Benito Cabrera, aliás "Fabián Ramírez", membro do alto comando das Farc, havia declarado no início do mês que o grupo estava disposto a "acabar com essa guerra", numa negociação "sem ódio, sem vantagens, cedendo, olhando quem tem razão". Naquela ocasião, porém, Cabrera, ele mesmo um veterano de negociações anteriores, deixou claro que o diálogo não será ameno, ao dizer que, "para acabar com a guerra, tem de acabar com as causas que a originaram" - isto é, com o "Estado burguês", como defendem as Farc desde sua fundação, em 1964.

Por outro lado, Santos terá dificuldade de convencer os militares sobre a pertinência do diálogo com as Farc, apesar do clima de entusiasmo na Colômbia. O Exército é contrário, por exemplo, a que se anistiem os líderes da guerrilha envolvidos em assassinatos, como provavelmente as Farc exigirão. Um trunfo de Santos é uma lei aprovada em junho que permite oferecer aos guerrilheiros a possibilidade de entrar na vida política - com exceção daqueles que cometeram crimes de guerra ou contra a humanidade.

Além dos militares, outra frente de resistência é a linha dura conservadora liderada pelo ex-presidente Alvaro Uribe, um partidário do combate sem tréguas às Farc. Para ele, o presidente Santos - que foi seu ministro da Defesa, responsável pela repressão à guerrilha - está "legitimando a cumplicidade de Hugo Chávez com as Farc" - e o caudilho venezuelano, por sua vez, estaria usando as negociações para pagar esse favor e, de quebra, ganhar brilho para sua campanha de reeleição.

É diante dessa atmosfera de tensão que se recomenda prudência antes de comemorar a retomada do diálogo na Colômbia. A nova tentativa será apenas mais uma entre tantas se se repetir o padrão de traições e desconfiança mútua que marca o turbulento histórico das negociações de paz no país.

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