Nova história na Argentina

Dizem os argentinos, com o saudosismo entranhado na sua cultura nacional, que o passado siempre fue mejor. E assim como muitos são capazes de se engalfinhar em acirradas discussões para provar que Carlos Gardel continua cantando cada vez melhor, não faltam argentinos para apresentar suas versões peculiares - e muito particulares - dos políticos de sua predileção. Daí que, dessa perspectiva, não lhes soe frívolo polemizar sobre qual teria sido o melhor dos passados que o país conheceu em seus 195 anos de existência tempestuosa, frequentemente sangrenta - e fascinante.

O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2011 | 03h07

O culto acendrado aos heróis nacionais, e a Argentina os teve muitos para as escolhas das gerações que lhes sucederiam, faz parte desse peculiar enlace entre a contemporaneidade e a memória dos tempos idos. Mas nada que a olhos estrangeiros possa parecer uma singularidade do modo de ser argentino se compara à extravagância da presidente Cristina Kirchner de refazer o passado, por não ser de seu agrado a versão escrita "pelos vencedores das guerras civis do século 19".

Na antiga URSS, a revisão periódica da trajetória do regime, com a troca de posições entre heróis e traidores a cada edição da chamada Grande Enciclopédia Soviética, era uma das incontáveis faces da tragédia do totalitarismo. Na Argentina kirchnerista, a história se repete como caricatura. Começa pela grandiloquência do nome da agência estatal incumbida por decreto de apontar, na narrativa oficial, quem foi quem no país. Chama-se Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Ibero-Americano Manuel Dorrego.

O título rende homenagem a uma das mais controvertidas figuras dos primeiros tempos argentinos. Nascido em 1787, o militar participou das guerras de independência, governou Buenos Aires duas vezes, antes de ser deposto em 1827 por outro militar, Juan Lavalle, e executado pouco depois, a seu mando - a primeira morte do gênero no país. (Na capital federal, uma Plaza Dorrego coexiste com a mais conhecida Calle Lavalle.)

O problema de Dorrego era o descontrole emocional, a ponto de ser considerado insano. Cristina, que aprecia se declarar vítima de "fuzilamentos midiáticos", o compara ao seu falecido marido Néstor, "irreverente" e "louco". Gosto não se discute, a menos quando o governante de turno o transforma em preferência do Estado. O Instituto Nacional de Revisionismo, etc., etc., funcionará na Secretaria Federal de Cultura e não lhe faltarão recursos. Sua monumental tarefa será "estudar, investigar e difundir a vida e obra de personalidades e circunstâncias destacadas (…) que não tenham recebido o reconhecimento adequado no âmbito institucional". Para dirigi-lo, a presidente nomeou o historiador Mario O'Donnel, o Pacho, entusiasta da tradição caudilhesca que sabidamente retardou o desenvolvimento político da vizinha nação.

A independência da entidade pode ser também avaliada pelos seus demais membros - ministros do gabinete presidencial, jornalistas chapas-brancas e políticos alinhados com o oficialismo. É certo que eles darão "o reconhecimento adequado" ao tirano Juan Manuel de Rosas (1835-1852), afamado pelas brutais campanhas de extermínio que ordenou contra a população indígena do sul da Província de Buenos Aires.

Para a Casa Rosada, apesar disso, ele é um herói, o "primeiro grande nacionalista" argentino. Já o presidente filoeuropeu Julio Roca (1880-1886 e 1898-1904), que por sua vez mandou massacrar dezenas de milhares de indígenas na conquista da Patagônia, seria nada além de um genocida, cujas estátuas deveriam ser removidas. Pior ainda para a Argentina será a eventual inclusão no índex dos maus compatriotas de sua mais luminosa figura histórica, o pensador Domingo Faustino Sarmiento, que governou o país entre 1868-1874.

No exílio a que foi condenado por Rojas, ele escreveu um soberbo estudo da política argentina - Civilização e Barbárie - a partir da história do caudilho riojano Facundo Quiroga. Presidente, lançou as bases da moderna Argentina, instituindo o ensino público e estimulando a imigração europeia - daí Cristina desdenhar dele como "europeizante". Na data de sua morte se comemora o Dia do Professor. Ela ignora o evento.

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