Novamente a febre amarela

Impõe-se a vacina onde os macacos estão morrendo para o vírus não chegar às cidades

VICENTE AMATO NETO E JACYR PASTERNAK*, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 03h00

A febre amarela e o Aedes aegypti vieram para a América com os navios negreiros. E ficaram. O Aedes até chegou a ser repelido do Sudeste brasileiro, no começo do século 20, por um esforço enorme de Oswaldo Cruz, mas voltou com toda a força e, seguramente, hoje é praticamente impossível fazer o que esse competente cidadão conseguiu com seus mata-mosquitos. Atualmente, se nem a polícia entra em algumas comunidades do Rio de Janeiro, é duvidoso que um mata-mosquitos, armado apenas com inseticidas, consiga ter sucesso.

Quanto ao vírus causador da febre amarela, ele motivou várias epidemias urbanas dessa moléstia nas Américas, em seu todo – o Canal do Panamá não é um grande ícone da engenharia francesa porque a enfermidade dizimou operários e só foi possível obter êxito quando os norte-americanos fizeram um combate agressivo ao Aedes, tornando viáveis as escavações e as obras. A infecção fez epidemias graves em New Orleans e em diversas outras cidades norte-americanas, incluindo a Filadélfia, onde Benjamin Rush deve ter ajudado a matar vários pacientes com seu entusiasmo por indicar sangrias nesses pobres coitados.

Com o tempo e o uso de inseticidas, as Américas livraram-se da febre amarela urbana – o último surto ocorreu no Brasil em 1942. No entanto, o vírus achou outros vetores nas Américas – e, particularmente, no Brasil. Além de outros hospedeiros, estamos falando dos mosquitos do gênero Haemagogus, que vivem nas copas das árvores, e dos muitos tipos de macacos das nossas selvas, por exemplo. Eles têm sofrimento semelhante ao dos humanos, com alta mortalidade. A cada cinco, sete ou mais anos há novas epizootias de febre amarela entre as muitas espécies macacais que temos neste país, algumas das quais em risco de extinção por perda de meio ambiente. É o que está ocorrendo: epizootias extensas levaram a casos de febre amarela silvestre em pessoas de Minas Gerais, Espírito Santo e Estado do Rio que vivem em zonas rurais.

Porém, como estão muitos e famintos os Aedes nas nossas cidades, o risco de despontar de novo a modalidade urbana não é desprezível.

Felizmente, existe vacina extremamente eficiente, produzida aqui mesmo, para a prevenção da moléstia. É a de vírus vivo, cepa 17 D, que com uma única dose provavelmente é efetiva por toda a vida. Não há mais indicação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de repetição da imunização. Se a vacina fosse totalmente segura, a febre amarela humana seria problema resolvido, bastaria vacinar todo mundo. Todavia ela não é tão inócua, porquanto se verificam casos, embora raros, de complicações, bem documentadas, de acometimentos exatamente iguais aos da febre amarela em vacinados. Isso sucede particularmente em idosos e só na primeira vacinação. Repetições não são nocivas.

O que se impõe perante a epizootia de febre amarela é vacinar em áreas onde os macacos estão morrendo, a fim de cercar a disseminação do vírus. Tal conduta, além de prevenir mais casos, evitaria também a eventual chegada de microrganismo causador aos nossos Aedes urbanos. Há conjuntamente, no Brasil, mais um possível transmissor urbano: o Aedes albopictus, que é um mosquito que transita da zona rural para a cidade.

Deveríamos ter uma vacina melhor, com menor potencial para causar problemas. Entretanto, isso precisa de pesquisas. Como em tantos transtornos, o investimento em investigações científicas depende da importância deles. Entre os países que fazem pesquisas, podemos mencionar que para os Estados Unidos da América a febre amarela não é uma prioridade vacinal, a menos que se metam em alguma guerra em local onde exista esse distúrbio em copiosa quantidade. Afinal, não esqueçamos que os militares norte­americanos são jovens muito bem alimentados e em ótimo estado de saúde e, pelo menos quando chegam ao teatro da beligerância, depararão com população em que os riscos incentivados pela vacina são muito pequenos.

Do ponto de vista de preservar a variedade zoológica do Brasil e manter os nossos primatas, incluindo as ameaças de extinção, seria desejável ter uma vacina que possa ser levada a eles, ou seja, algo oral, como é feito contra a raiva, quando usada para imunizar animais selvagens. Identicamente, não conhecemos notícias sobre qualquer investimento para conseguir alguma dianteira desse tipo. Esta aí uma dica para algum zoólogo ou biólogo interessado em manter nossa diversidade faunística, já tão ameaçada por invasões do hábitat dos macacos por esse outro primata sem-vergonha que acha que só ele é importante sobre a Terra.

Gestores da saúde pública enfrentam adequadamente a enfermidade. Almejamos sucesso. Paralelamente, cogitar de progressos é aconselhável, pois o mal poderá voltar. Comentários e sugestões construtivos: analisar bem por que retornam os surtos urbanos e rurais; na prevenção, usar inseticidas para debelar mosquitos silvestres ou diminuir bastante a quantidade de macacos não é cogitável; a batalha contra o Aedes deve ser contínua, sem pedaços – chegam a admitir que ele não transmite o vírus. Infelizmente, existem no Brasil poucos laboratórios de saúde pública competentes; o vírus talvez seja mutante; a porção de setores assistenciais com correto isolamento é pequeno; a quantidade de médicos que conhece bem a moléstia ainda é insuficiente e o tratamento de casos graves exige especial assistência. Incomoda saber que alguns diagnósticos são obtidos logo e há porcentagens até grande de suspeitos, faltando boa prática e eficácia para esclarecer rapidamente; a proporção de óbitos ainda é estabelecida provisoriamente, pelo fato, por exemplo, de que às vezes tem base em avaliação clínica. A preconização de emprego de fracionamento da vacina não está ainda bem definida. Seria louvável se instruções e divulgações fossem mais constantes por faculdades de Medicina, associações, sindicatos e empresas.

* VICENTE AMATO NETO E JACYR PASTERNAK SÃO MÉDICOS E PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS

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