Novas exigências para crescer

O conjunto de fatores que, nos últimos anos, garantiram o crescimento médio de 4% ao ano das economias latino-americanas, preservando-as dos piores efeitos da crise mundial, está se esgotando e, se elas não forem capazes de fazer as mudanças necessárias, seu crescimento será menor, com efeitos sociais visíveis. Se esses países não aumentarem os investimentos, sobretudo em infraestrutura, e não alcançarem maior produtividade, terão grandes dificuldades para manter o crescimento acelerado.

O Estado de S.Paulo

06 Maio 2013 | 02h08

O alerta, feito pelo diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), Alejandro Werner, vale para todos os governos da região, para a qual a instituição projeta crescimento de 3,4% em 2013 e de 3,9% em 2014. Mas é particularmente relevante para o do Brasil, cuja economia já cresce a um ritmo bem menor do que o da média dos últimos anos, as perspectivas não são brilhantes e a inflação se acelera.

Em entrevista concedida em Washington ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, Werner disse que os países da região já estão utilizando quase toda sua capacidade de produção, as vantagens que obtiveram com a alta dos preços das commodities no mercado mundial não devem se manter daqui para a frente e os juros internos não devem continuar caindo. "Aliás, o mais provável é que voltem a subir", observou - e isso já ocorre no Brasil.

Nesse cenário, a manutenção do crescimento acelerado dos últimos anos exigirá dos países latino-americanos medidas que resultem em aumento de sua produtividade e de seus investimentos produtivos em velocidade maior do que a observada até agora. Em resumo, eles precisam aumentar a eficiência de seu setor produtivo, para produzir mais e a preços mais competitivos, e aumentar também sua capacidade de produção.

No caso do Brasil, essas necessidades estão se tornando agudas, em particular na indústria.

A eficiência do setor agroindustrial tem assegurado o bom desempenho da economia brasileira e os saldos comerciais do País. Embora, como observou Werner, "o boom de commodities, que gerou um efeito renda importante para vários países", não deva se repetir nos próximos anos, a agroindústria certamente continuará a desempenhar papel decisivo na manutenção do ritmo de atividades da economia brasileira, graças aos notáveis ganhos de produtividade que obteve nas últimas décadas.

Já a indústria, sobretudo a de transformação, vem perdendo espaço para a concorrência estrangeira não apenas no mercado externo, mas também no doméstico. Em alguns segmentos, antigos produtores optaram por tornar-se importadores dos bens que antes produziam, pois não viam condições de competir com os importados.

Há anos o governo do PT vem anunciando medidas de estímulo aos investimentos industriais, para modernização e ampliação da capacidade produtiva, mas a persistência de resultados negativos da produção industrial sugere que, se essas medidas são corretas, até agora não produziram os efeitos que delas se esperavam.

Esse problema foi apontado pelo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Olivier Blanchard, em entrevista ao jornal Valor. Na sua avaliação, o fraco desempenho recente da economia brasileira tem forte relação com o comportamento frustrante dos investimentos. Sem apontar de maneira clara as razões do baixo nível de investimentos, Blanchard sugeriu os fatores que podem ter provocado isso. "É provável que um número de distorções, assim como alguma incerteza sobre políticas, tenham um papel nisso", disse.

De fato, as incertezas sobre a condução da política fiscal do governo do Partido dos Trabalhadores - cada vez mais frouxa -, os inquietantes sinais de aumento da intervenção do governo nas atividades tipicamente privadas e as dúvidas crescentes sobre a real autonomia do Banco Central para conduzir a política monetária de maneira adequada para conter a pressão sobre os preços inibem os empresários, levando-os a conter seus planos de expansão e modernização.

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