Novo ataque à Vale

O governo federal continua manobrando para intervir na administração da Vale, a segunda maior mineradora do mundo, maior produtora mundial de minério de ferro e maior exportadora do Brasil, com receita de US$ 24 bilhões em 2010, igual ao valor programado para investimentos em 2011. O presidente Lula jamais disfarçou seu desejo de "reestatizar" a empresa, transformando o principal executivo do grupo em um cumpridor de ordens do Palácio do Planalto. Tentou orientar os projetos de investimento da Vale e censurou sua administração, quando foram anunciadas 1.300 demissões em 2008, no começo da crise global (a empresa atua em 38 países e emprega 115 mil pessoas). Mudou o governo e a presidente Dilma Rousseff exibe um novo estilo no tratamento de várias questões políticas e econômicas, mas a tentação de intervir na Vale não desapareceu. A sucessora de Lula, segundo informam fontes do Executivo, mantém a disposição de substituir Roger Agnelli no comando da empresa por um dirigente mais submisso à orientação governamental.

, O Estado de S.Paulo

15 Março 2011 | 00h00

A escolha do Conselho de Administração da Vale deve ocorrer em maio. Fundos ligados ao governo por meio de estatais detêm 49% das ações da empresa. Não têm poder, portanto, para eleger uma nova diretoria. Para substituir Agnelli por algum executivo de sua preferência, o governo teria de negociar com os demais acionistas. Já se tentou essa manobra, no segundo mandato do presidente Lula, sem resultado. Mas foi evidenciado, mais uma vez, o empenho do governo em retomar o comando de grandes empresas privatizadas. Ainda na crise, o presidente Lula pressionou a diretoria da Embraer por demitir cerca de 4.300 funcionários. Todas as fabricantes de aviões foram severamente afetadas pela recessão e todas foram forçadas a um ajuste.

Em Brasília, no entanto, atribui-se à presidente Dilma Rousseff a intenção de blindar a Vale contra interesses políticos, nesta fase de possível mudança no Conselho. A decisão de entregar as negociações ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, seria uma forma de despolitizar a sucessão na mineradora. Mas não tem sentido falar em despolitização, quando o objetivo evidente do governo é mandar na empresa e sujeitar sua administração aos critérios do Planalto.

A Vale, a Embraer e outras grandes empresas privatizadas ganharam dinamismo quando passaram a ser comandadas com critérios estritamente empresariais e assim passaram a contribuir de forma importante para o Tesouro Nacional. Houve um inegável ganho de qualidade gerencial. Os argumentos do governo para intervir na Vale revelam exatamente o oposto - uma constrangedora incapacidade de entender os negócios da empresa e os interesses estratégicos do País. Segundo uma crítica absolutamente bisonha, a diretoria da Vale prefere vender minérios a exportar produtos de maior valor agregado à China. Recusando-se a investir na siderurgia, condena o País a importar trilhos em troca de matéria-prima. Essa acusação é um despropósito. A Vale vende minério à China porque os chineses precisam de minério e essas vendas são excelente negócio para o Brasil. Além disso, a Vale já investe em siderurgia. Mas toda empresa tem de pesar as decisões de investimento, porque as usinas brasileiras, segundo o Instituto Aço Brasil, tinham em 2010 um excesso de capacidade de 51% em relação à demanda nacional. Mesmo com as exportações, ainda sobra capacidade.

Mas o País, de fato, exporta um volume desprezível de manufaturados para a China. Isso ocorre porque o governo Lula foi incapaz de negociar melhores condições de intercâmbio. Também foi incapaz de montar com o setor privado uma estratégia de comércio com a China e com outros parceiros. Ao contrário: forçou a indústria nacional a aceitar o protecionismo dos vizinhos e desprezou a oportunidade de um acordo comercial com os EUA - tradicionalmente um importante mercado para os manufaturados brasileiros. A Vale cumpre muito bem seu papel e não tem sentido responsabilizar seus dirigentes pelas tolices da diplomacia Sul-Sul.

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