Novo mandato para Bernanke

O mais poderoso presidente de banco central do mundo, Ben Bernanke, terá mais quatro anos de mandato, se o Senado americano aprovar a renovação proposta pelo presidente Barack Obama. A decisão de Obama é mais que um prêmio para a atuação de Bernanke durante a crise, na chefia do Federal Reserve (Fed). É, antes de mais nada, uma demonstração de prudência, muito bem recebida nos mercados financeiros de todo o mundo. Segundo seus críticos, o comandante do Fed hesitou em alguns momentos e poderia ter impedido, no ano passado, a quebra do banco de investimentos Lehmann Brothers. Mas, apesar de alguma ressalva, a maioria dos especialistas aplaude o seu desempenho e põe na sua conta a maior parte do crédito pelos efeitos conseguidos no combate à turbulência financeira. Sem as medidas que adotou, admitem, o desastre poderia ter sido muito maior e o resultado seria uma depressão profunda, prolongada e muito mais custosa para todo o mundo. Com sua iniciativa, o presidente Obama elimina um importante fator de incerteza e facilita a operação dos mercados. Apesar de alguns sinais positivos, nos EUA e noutros grandes países desenvolvidos, a economia global continua frágil e não se pode afastar a hipótese de uma recaída, se houver uma nova onda de insegurança. Bernanke se tornou respeitado, academicamente, como um estudioso das crises. Como presidente do Fed, mostrou-se capaz de traduzir sua competência acadêmica em ações práticas. A perspectiva de sua permanência no posto elimina os inconvenientes da especulação sobre os possíveis nomes para sua sucessão. Mas a permanência no poder forçará Bernanke a enfrentar problemas complicados nos próximos anos. Para conter a expansão da crise financeira e limitar as quebras no mercado, o Fed canalizou enormes volumes de dinheiro para as instituições em risco e pôs em circulação muitas centenas de bilhões de dólares, na tentativa de reanimar e normalizar o sistema de crédito. Ao mesmo tempo, o Tesouro americano capitalizou grandes bancos, interveio no setor industrial, concedeu incentivos aos consumidores e iniciou grandes programas de investimento para reerguer a economia que entrou na recessão. Fed e Tesouro deverão manter a ação anticíclica ainda por algum tempo, até os sinais de recuperação econômica se tornarem mais firmes. Mas o socorro à economia aumentará o déficit público e a dívida federal e criará pressões inflacionárias. O rombo previsto para este ano fiscal (até setembro) foi reduzido de US$ 1,84 trilhão para US$ 1,58 trilhão, mas a projeção do acumulado em dez anos foi elevada de US$ 7,1 trilhões para US$ 9 trilhões. Com isso, a dívida pública poderá chegar a US$ 17,5 trilhões em 2019 - soma equivalente a 76,5% do PIB projetado para aquele ano. A dívida atual corresponde a 56% do valor estimado para a produção de bens e serviços. O governo americano espera, naturalmente, continuar financiando seu débito com a ajuda de grandes compradores de papéis do Tesouro, como a China, o Japão e vários emergentes de peso, incluído o Brasil. Mas, para reequilibrar a economia dos EUA, o Tesouro terá de moderar seus gastos e o Fed precisará elevar os juros. Isso afetará o custo de financiamento de governos e empresas de todo o mundo e a economia brasileira não ficará isenta dessas consequências. Por enquanto, a tarefa principal das autoridades americanas é impulsionar a recuperação da atividade e afastar o risco de uma recaída. Nos Estados Unidos, as encomendas de bens duráveis cresceram 4,9% em julho. As vendas de residências novas aumentaram 9,6% de junho para julho, muito acima da previsão dos analistas (1,6%). Na China, o crescimento estimado para este ano, em torno de 8%, deverá ser confirmado. Na Alemanha e na França, o PIB do segundo trimestre foi 0,3% maior que o do primeiro. Nos dois países, a produção continua muito abaixo da observada um ano antes, mas a recessão parece ter acabado. Em junho, o volume do comércio mundial foi 2,5% maior que o de maio, segundo levantamento do governo holandês. A recuperação parece cada vez mais clara, mas, por algum tempo, Bernanke e outros presidentes de bancos centrais não precisarão tomar decisões impopulares. Que aproveitem essa fase para ser felizes.

, O Estadao de S.Paulo

27 de agosto de 2009 | 00h00

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