Novos ares no Mercosul

Temer cumprimenta Macri por 'expressiva vitória' na reforma da Previdência argentina

O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2017 | 03h00

O presidente Michel Temer usou a abertura da reunião de cúpula do Mercosul para enfatizar o contraste profundo que há entre a atual visão dos grandes protagonistas do bloco – Brasil e Argentina – e a que prevalecia até pouco tempo atrás, quando esses dois países eram administrados por governos estatizantes, populistas e refratários ao livre comércio.

Temer está encerrando seu período de seis meses na presidência do Mercosul. Antes do brasileiro, exerceu o cargo o argentino Mauricio Macri. Esse curto período de um ano sob novos ares, longe da influência deletéria do lulopetismo e do kirchnerismo, foi o suficiente para que o Mercosul começasse a retomar seus objetivos iniciais, voltados para o dinamismo comercial e para a integração, em lugar de servir como instrumento político para tentar legitimar a ditadura chavista na Venezuela e para desafiar o “império estadunidense”.

Assim, Temer, em seu discurso, fez diversas referências aos progressos notáveis em relação àquela época de confronto ideológico e de atraso econômico. “Avançamos na superação de entraves ao comércio”, disse o presidente, fazendo referência ao exercício “extraordinariamente bem conduzido” pela Argentina. “Seguimos reduzindo barreiras. Estamos assistindo a uma verdadeira mudança de prioridades. Passamos da fase em que se criavam empecilhos ao comércio, para outra fase, que queremos aprofundar, em que atuamos para derrubar barreiras, reduzir burocracias, assegurar previsibilidade”, discursou Temer.

Ele citou, entre os avanços para “resgatar a vocação original do bloco”, as negociações do acordo sobre compras públicas entre os países-membros. Temer também mencionou “renovado impulso” na área de regulação, pois “o mundo de hoje requer celeridade na elaboração e na revisão de regulamentos técnicos”, e falou das tratativas para melhorar a segurança cibernética.

O mais importante, contudo, foi a defesa “inequívoca”, conforme sublinhou Temer, do fortalecimento do sistema multilateral de comércio. “Sabemos que o isolamento vai na contramão do desenvolvimento”, disse o presidente, que listou as iniciativas comerciais que envolvem o Mercosul desde a mudança de ares. Uma das mais significativas é a aproximação com a Aliança do Pacífico, formada por México, Colômbia, Peru e Chile. Até pouco tempo atrás, o Brasil, então presidido por Dilma Rousseff, ao mesmo tempo em que ensaiava uma aproximação com a Aliança do Pacífico, considerava aquele bloco um rival do Mercosul – especialmente quando a Aliança se apresentou ao mundo como uma iniciativa livre das amarras ideológicas que notabilizavam o Mercosul. A crispação entre os dois blocos recrudesceu quando a Aliança aceitou como observador o Paraguai, que havia sido suspenso do Mercosul em uma manobra do Brasil de Dilma e da Argentina de Cristina Kirchner para permitir que a Venezuela chavista ingressasse no clube. Felizmente, os tempos hoje são outros, e prevalecem os interesses nacionais, e não os ideológicos e partidários.

A propósito da Venezuela, Temer disse que a suspensão do país, decidida em razão da ruptura democrática promovida pelo ditador Nicolás Maduro, era “uma medida que se impunha”, pois a defesa da democracia é compromisso assumido pelo Mercosul desde sua fundação. “Queremos, aliás, que a nação venezuelana, de volta à democracia, possa também voltar ao Mercosul, onde será recebida, naturalmente, de braços abertos”, afirmou.

Temer encerrou seu discurso com um elogio aos esforços para a aprovação de reformas especialmente no Brasil e na Argentina, deixando evidente que é disso que depende a modernização das economias mais importantes do Mercosul. No Brasil, como se sabe, as reformas ainda enfrentam grande resistência especialmente por parte de funcionários públicos e de políticos demagogos. Mas não é impossível vencer essa resistência, como mostra o recente triunfo do governo argentino na aprovação da reforma da Previdência, que levou Temer a cumprimentar Macri e saudar sua “expressiva vitória”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.