Novos sustos no mercado

Os mercados financeiros entraram em março assombrados pelo maior prejuízo trimestral da história corporativa dos Estados Unidos - a perda de US$ 61,7 bilhões contabilizada pela seguradora American Internacional Group (AIG) no quarto trimestre de 2008. No ano, o prejuízo chegou a US$ 99,3 bilhões. O Tesouro americano anunciou a disposição de injetar mais US$ 30 bilhões na seguradora, já socorrida em setembro com dinheiro do contribuinte. Na Europa, a notícia ruim para as bolsas foi a redução de 70% do lucro anual do Banco HSBC, de US$ 19,1 bilhões para US$ 5,7 bilhões. Enquanto suas ações caíam 15%, o banco informava o fechamento das operações de financiamento ao consumidor nos Estados Unidos, com dispensa de 6.100 funcionários ao custo de US$ 10,6 bilhões. Com demissões de milhares e perdas de bilhões dominando o noticiário de negócios no dia a dia, os sinais de reativação da economia mundial continuam fora do radar. E isso não é o pior. No fim do ano passado havia a esperança de se iniciar 2009 com a crise financeira contida. Se isso tivesse acontecido, os governos poderiam concentrar-se no combate à retração econômica e ao desemprego. Aquela esperança foi logo desfeita.O foco inicial dos problemas não foi controlado e, além disso, o risco da insolvência chegou aos bancos de economias emergentes, como as do Leste Europeu. Em Nova York, o índice Dow Jones abaixo de 7.000 pontos pela primeira vez desde 1997 sintetizou a reação a esse conjunto de informações assustadoras.O perigo de uma quebradeira bancária complica a situação já difícil da maior parte dos países da antiga Europa socialista. Depois de anos de crescimento acelerado, essas economias agora exibem elevados déficits fiscais e grandes desequilíbrios nas contas externas. Várias delas buscaram socorro no FMI, mas dificilmente vencerão seus problemas financeiros e econômicos sem ajuda especial dos países mais avançados da Europa ocidental. A associação entre os dois grupos de países funcionou bem até recentemente, com as grandes empresas de países como Alemanha, França e Itália investindo para aproveitar a mão de obra mais barata do mundo ex-socialista. Mas o socorro financeiro aos novos sócios da União Europeia será difícil, enquanto o governo alemão se opuser à sua concessão. A crise iniciada nos Estados Unidos e na Europa alcança outras áreas emergentes e em desenvolvimento pela retração do comércio, pela baixa dos preços dos produtos básicos e pela redução dos fluxos financeiros. O México é afetado imediatamente pela redução da atividade nos Estados Unidos e no Canadá e pela redução do preço do petróleo. A desvalorização do petróleo atinge também a Rússia. China, Índia e outras economias da Ásia são prejudicadas pela retração nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. No Brasil, as exportações acumuladas em janeiro e fevereiro, de US$ 19,4 bilhões, foram 21,9% menores, em valor, que as do primeiro bimestre do ano passado. Essa redução é explicável tanto pela retração nos países mais avançados quanto pelas dificuldades da Argentina e de outros parceiros sul-americanos, dependentes da exportação de commodities. Até o fim do mês serão atualizadas as projeções da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). As de novembro indicavam uma contração de 0,9% para os Estados Unidos, de 0,5% para a zona do euro e de 0,3% para a média dos países da organização, formada por economias industrializadas. "Daqui até a metade do ano, ou talvez até o terceiro trimestre, haverá piora dos indicadores, mas isso já sabemos e não quer dizer que a cada semana teremos uma surpresa", disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría. A melhora dos indicadores mundiais, segundo ele, poderá começar no último trimestre e continuar lentamente em 2010. A economia brasileira entrou nesta crise com melhores condições do que no passado, mas a exportação caiu, a atividade recuou desde o fim de 2008 e o desemprego tem crescido. As primeiras tentativas de reativar a economia por meio de facilidades fiscais deram resultado modesto, mas já afetaram a arrecadação tributária. Além disso, o manejo da política orçamentária foi limitado pelo aumento de gastos com pessoal. É preciso continuar usando os estímulos fiscais, mas com melhor planejamento e com mais esforço de contenção das despesas improdutivas.

, O Estadao de S.Paulo

03 de março de 2009 | 00h00

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