O acidente entre aspas

Uma conjugação de interesses diversos parece empenhada em separar a tragédia do Airbus da TAM da crise dos serviços de transporte aéreo que o Brasil enfrenta desde a queda do Boeing da Gol, em setembro do ano passado. A tentativa de confinar o horror da terça-feira em Congonhas, tratando-o como um acidente isolado, sem relação alguma com as deficiências do setor que vêm sendo reveladas nesses 10 meses, convém a uma multiplicidade de protagonistas: ao Planalto, a todas as áreas da administração federal responsáveis de uma forma ou de outra pela gerência do sistema de transporte aéreo nacional e - por último, mas não menos importante - às principais empresas de aviação comercial do País, que não admitem qualquer limitação do movimento de Congonhas. Faltou combinar com os procuradores federais que pediram a interdição do aeroporto até o fim das investigações sobre a catástrofe. Se já não tivesse ficado demonstrado que o maior aeroporto do Brasil não tem mais condições de operar com um mínimo de eficiência o número de vôos que ali começam ou terminam, diariamente, e se essa questão, por sua vez, não fizesse parte do amplo rol de problemas enfeixados no termo apagão aéreo, a iniciativa do MP surpreenderia. Mas surpreende tão pouco quanto o próprio desastre. Este provocou todas as reações próprias de situações do gênero - menos uma. Não se ouviu a pergunta que, em outras circunstâncias, traduziria o espanto geral: "Mas como foi possível acontecer uma coisa dessas?!" E só se ouve a expressão "tragédia anunciada".O ponto focal do esforço das partes interessadas em dissociar a catástrofe da precária segurança oferecida pelo saturado Aeroporto de Congonhas - de que não se cansam de falar, em privado, os pilotos comerciais - é o filme da Aeronáutica que mostra o Airbus se deslocando pela pista cerca de três vezes mais depressa do que outros aparelhos semelhantes (depois de ter tocado o solo no ponto certo e na velocidade ideal). Esse fato faria recair a culpa pelo desastre ou numa falha do equipamento de frenagem do jato, ou numa imperícia do piloto, ou numa combinação das duas coisas. A versão que se deseja propagar é que, não fosse isso, o vôo 3054 completaria normalmente o trajeto em terra e os passageiros desembarcariam sãos e salvos. Ou seja, nenhuma importância teriam tido a chuva e a lâmina de água na pista principal de Congonhas - de meros 1.940 metros -, nem tampouco a decisão da Infraero de liberá-la após uma reforma de emergência, sem a etapa final da obra, que só poderia ser feita mais adiante - a escavação, no asfalto, dos sulcos que ajudam a escoar a água das chuvas, evitando derrapagens. Duas manifestações, pelo menos, procuraram sugerir que, em última análise, a "fatalidade", que matou 186 passageiros e tripulantes (além das demais vítimas), poderia ter ocorrido em outra pista, de outro aeroporto, se o desempenho do avião e a conduta do piloto fossem os mesmos. Procura-se afastar, liminarmente, a hipótese da aquaplanagem, que o filme da Aeronáutica está longe de eliminar. O ministro de Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, embora insistisse no condicional "se", apressou-se a dizer que a culpa não foi de ninguém - "nem do presidente", especificou - "a não ser de quem estava pilotando, se o desastre tiver ocorrido por falha humana". E o superintendente de Empreendimentos de Engenharia da Infraero, Armando Schneider Filho, afirmou taxativamente que "não existe possibilidade de derrapagem (por empoçamento da pista) nas condições atuais". Perguntado sobre o avião da Pantanal que saiu da pista na véspera da tragédia, disse quase de um só fôlego que não poderia responder porque o caso ainda está sendo investigado, mas "com certeza não foi derrapagem". De seu lado, o presidente da TAM, Marco Antonio Bologna, apressou-se a descartar "absolutamente" problemas com o Airbus e a pista.Ele observou que, desde a liberação, aviões da empresa pousaram ali 2.160 vezes. Trata-se de um sofisma. A imensa rede de procedimentos voltados para a segurança de vôo parte de uma premissa equivalente à da tolerância zero. Um desastre aéreo é sempre desastre demais, dizem os americanos. Às vezes ocorrem mesmo quando tais normas são obedecidas à risca. Chamam-se, por isso, acidentes. Já a catástrofe da TAM, por esse critério, foi um acidente entre aspas.

O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.