O acordo Fatah-Hamas

Como era de esperar, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, reagiu com duras críticas ao anúncio da reconciliação entre as principais facções políticas palestinas: os antagônicos Fatah, a força secular dominante na Autoridade Nacional Palestina (AP), que administra a Cisjordânia ocupada por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e o islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza desde a retirada unilateral israelense, em 2005. O acordo foi negociado em segredo no Cairo por intermédio dos órgãos de inteligência do novo governo egípcio, depois de duas tentativas frustradas ainda sob a égide do então presidente Hosni Mubarak - em quem o Hamas não confiava.

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29 Abril 2011 | 01h39

"A ideia da reconciliação demonstra a fraqueza da Autoridade Palestina", disparou Netanyahu, desafiando-a a escolher "entre a paz com Israel e a paz com o Hamas, que quer nos destruir". Ninguém melhor do que ele há de saber que o seu governo direitista é o responsável número um pelo enfraquecimento, ou melhor, desmoralização da AP entre os palestinos. Israel nunca teve e talvez nunca venha a ter um interlocutor árabe tão sereno como o presidente da organização, Mahmoud Abbas, de 76 anos. Na função desde 2005, depois da morte do líder Yasser Arafat, ele demonstrou no trato com os israelenses paciência de Jó e propensão para ceder.

Não apenas não recebeu deles, em retribuição, uma migalha que pudesse exibir ao seu povo, como prova do acerto de sua conduta, mas foi ainda sistematicamente sabotado, tendo de assistir à expansão continuada (e subsidiada) dos assentamentos judaicos na chamada Margem Ocidental do Jordão e à anexação cada vez mais assídua de áreas de Jerusalém Oriental para empreendimentos imobiliários que naturalmente excluem os 200 mil palestinos ali residentes. A situação econômica nos territórios melhorou, graças a doações da União Europeia e a investimentos árabes e israelenses. Mas as condições de vida dos seus 2,6 milhões de habitantes continuam ignominiosas.

Claro que Abbas não é nenhum Gandhi ou Mandela. Com o incentivo tácito de Israel e dos Estados Unidos (que treinam e armam as suas agressivas forças de segurança), ele comanda um governo corroído pela corrupção e uma burocracia indiferente às necessidades elementares da população. Não admira que já em 2006 o Fatah tenha perdido para os islâmicos puros e duros do Hamas as primeiras eleições da história palestina. (O sistema do voto distrital ajudou, dando aos extremistas mais cadeiras no Parlamento, proporcionalmente aos sufrágios recebidos.) Estados Unidos, Europa e Israel recusaram-se a acatar os resultados, pela negativa do Hamas em reconhecer o Estado judeu e subscrever os acordos com ele firmados pelos palestinos.

No ano seguinte, coerente com os seus métodos, o Hamas expulsou o Fatah a bala da Faixa de Gaza - e, na virada de 2008 para 2009, quando Israel arrasou a região em represália a ataques com foguetes a suas cidades, Abbas fez pouco mais do que expressão corporal de solidariedade com as vítimas do desproporcional revide. E Israel se acomodou à divisão entre os inimigos, à paz fria porém vantajosa com o Egito e remeteu ao limbo as negociações de paz com a AP que deveriam desembocar na criação de um efetivo Estado palestino e no reconhecimento de Israel pelo mundo árabe.

A primavera árabe irrompeu na Cisjordânia e Gaza em março sob a forma de espontâneas manifestações de rua pela unidade palestina, com o fim dos conflitos entre o Fatah e o Hamas. Os exemplos da vizinhança mostraram aos respectivos líderes os riscos da imobilidade - e aos do Hamas, em especial, a oportunidade nascida com a queda de Mubarak, cujo governo ajudava Israel a bloquear a Faixa de Gaza, na fronteira com o Egito. Evidentemente, é cedo para saber, entre outras coisas, se os palestinos cumprirão a promessa de estabelecer um governo provisório comum nas duas áreas e convocar eleições em até um ano. Mas, para Israel, o prejuízo é real e presente.

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