O acordo mais difícil do G-20

É preciso manter o crescimento econômico, reduzir o desemprego e ao mesmo tempo corrigir enormes desequilíbrios nas contas públicas: como fazer tudo isso ao mesmo tempo? Este foi o assunto principal da reunião de cúpula do G-20, o grupo das maiores economias desenvolvidas e em desenvolvimento, realizada sábado e domingo em Toronto, no Canadá. Foi a discussão mais difícil desde o primeiro encontro de governantes do grupo, em novembro de 2008, em Washington, e o resultado foi satisfatório. Nas conferências anteriores foi muito mais simples encontrar denominadores comuns, porque as prioridades eram muito claras. Era urgente combater a recessão e ao mesmo tempo iniciar a reforma do sistema financeiro, berço da maior crise mundial desde os anos 30 do século passado. Os fatores de risco hoje são outros.

, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2010 | 00h00

O compromisso alcançado em Toronto foi menos vistoso que os acordos obtidos em outras conferências, mas pode-se considerá-lo um avanço. Diante de uma agenda muito mais complexa, foi mantido o esforço de coordenação de políticas.

O problema é exposto com clareza na declaração final do encontro. A recuperação é desigual e frágil, o desemprego permanece elevado em vários países e é essencial manter estímulos ao crescimento. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer a "importância de finanças públicas sustentáveis". Há dois perigos à frente. Políticas de ajuste fiscal sincronizadas nas principais economias poderão prejudicar a recuperação. Mas negligenciar a arrumação das contas públicas, nos países com maiores desequilíbrios, afetará a confiança dos mercados e também isso dificultará a reativação econômica.

Antes da reunião em Toronto, a expectativa era de um confronto entre Estados Unidos e Alemanha. O presidente americano, Barack Obama, tentaria persuadir a chanceler alemã, Angela Merkel, a afrouxar o plano de correção das contas públicas anunciado há poucas semanas.

As finanças do governo alemão são muito mais saudáveis que as de várias outras economias europeias, incluída a britânica. Além disso, a Alemanha é superavitária no comércio exterior. Se os seus cidadãos consumirem mais e suas importações crescerem, a recuperação dos demais países será mais fácil.

Não houve um placar oficial de vencedores e vencidos. O balanço final indica uma aproximação de posições. O compromisso de pelo menos cortar pela metade os déficits fiscais até 2013 e de estabilizar ou reduzir a relação dívida/PIB até 2016 deixa margem para um ajuste suave na Alemanha. O déficit das contas públicas alemãs equivaleu a 3,3% do PIB no ano passado e poderá chegar sem grande sacrifício à meta de 3% fixada para os sócios da União Europeia.

Nenhuma outra grande economia europeia tem situação fiscal tão confortável. A maior parte, incluídos Espanha e Reino Unido, terá de executar políticas severas para ajeitar as contas. O comunicado menciona políticas diferenciadas de acordo com as circunstâncias de cada país. O detalhe mais duvidoso é a disposição dos alemães ? dos cidadãos, e não só do governo ? de expandir o consumo e aumentar as importações.

Também este ponto ? reduzir o desequilíbrio comercial entre superavitários e deficitários ? é mencionado na declaração final do encontro. As grandes economias emergentes vêm contribuindo de forma importante para esse objetivo, de forma intencional ou não. Neste ano, as importações têm crescido mais velozmente que as exportações tanto na China ? maior potência exportadora do mundo ? quanto no Brasil e na Índia. Mas é injusto, como observou o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, atribuir essa responsabilidade só aos emergentes.

Os países deficitários, segundo o comunicado, deverão poupar mais e buscar o reequilíbrio fiscal e comercial, mas sem fechar seus mercados. Isso vale tanto para os Estados Unidos como para os europeus.

O resto dos grandes temas, como a reforma financeira internacional, aparece no comunicado sem grandes novidades. Uma das questões mais polêmicas, a tributação dos bancos, nem aparece no texto. Só há referência à cobrança de compensações pelos programas oficiais de ajuda.

Com realismo, pode-se qualificar a reunião como produtiva.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.