O advento da era da razão

Dúvidas balizam as interlocuções nos mais diversos ambientes: como será o governo da presidente Dilma Rousseff? Ela vai impor autoridade? Será pálida sombra do ex-presidente Lula? Sem traquejo na área política, conseguirá administrar as pressões partidárias e passar pelo olho do furacão nas Casas congressuais? As interrogações se apresentam pelo fato de suceder a um governo acentuadamente marcado pelo perfil do líder mais carismático de nossa contemporaneidade.

Gaudêncio Torquato, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2011 | 00h00

Sob esse prisma, a leitura mais linear é a de que a fosforescência do ciclo anterior tende a ofuscar a luz que se acende no palco que se abre. Pode-se apostar nessa hipótese? Não. A tendência é a de que a nova iluminação até propicie comparações de cores e matizes com a anterior, particularmente no seio de conglomerados que não mais verão no palanque a pessoa que identificavam como uma de suas legítimas representantes. As massas cultivam a catarse gerada por líderes carismáticos, que nelas provocam contínuas descargas emotivas. Vão perdê-la. Se a perda ocasionará algum vazio para elas, fará bem à identidade do governo Dilma. A alteração da maneira de agir do governante, pela forma de contato com as plateias, será benéfica ao País, pois o império da razão suplantará o reinado da emoção. Ciclos calcados na glorificação de imagens geralmente descambam na anestesia social. E uma sociedade anestesiada fecha as portas do futuro.

Não é preciso ser profeta para anunciar que a primeira mulher a comandar o País abrirá a era da racionalidade. Basta examinar sua trajetória na coordenação do Ministério Lula. Trata-se de pessoa afeita a planejamento, gerenciamento, controles e cobrança. Isso, por si só, é merecedor de aplausos, eis que passamos - e perdemos - um bocado de tempo interpretando a expressão do presidente que saiu ou ensaiando versões sobre o que disse ou tentou dizer. A substituição do verbo pela ação constitui um avanço. Os grupamentos pragmáticos, a partir das forças produtivas, terão motivos para comemorar o fato de que, doravante, encontrarão pautas mais concisas e objetivas. Os eventos serão desprovidos da verve de discursos improvisados e metáforas, ganhando mais substância. O que será condizente com um país que precisa regular os parâmetros a uma nova ordem. Há uma conta (grande) a ser paga e que, sabe-se, tem sido empurrada com a barriga - 2011 se prestará a ajustes, entre os quais o financiamento da área da saúde, o preenchimento dos buracos da Previdência, cada vez mais fundos dada a expansão da conta dos aposentados, carências no setor de segurança, etc.

Quando se diz que o Brasil passou ao largo da crise financeira internacional (2008-2009), pouco se destaca que isso não se deu de maneira fortuita. A política que propiciou a milhões de brasileiros amplo acesso ao consumo oxigenou as veias da economia. Chegou, porém, o momento de o País adequar a política econômica às novas disposições da economia internacional, no entendimento de que não é uma ilha de segurança no mundo conturbado. O início de um novo governo é ideal para integrar políticas e alinhar posições. Nesse ponto emerge o perfil da presidente. Não se espere que o primeiro ano da governante seja pleno de realizações e ações de impacto. Servirá, isso sim, para a correção de rumos e desvios, justaposição de programas e projetos, a partir de rígida revisão do PAC. Como agirá Dilma? É possível distinguir na nova mandatária-mor um senso crítico mais acentuado que o de seu antecessor. Será mais exigente e inflexível do que Lula nas cobranças. Essa característica, aliás, ganhará relevo, até porque é esse vetor que balizará sua identidade. O alinhamento da equipe ministerial tomará um bom tempo, não se devendo descartar a possibilidade de substituição de um parafuso na engrenagem, em caso de desgaste. Trata-se de uma constelação sem grandes estrelas, facilitando sua harmonia. Mas o conjunto de ministros escolhidos deve ser considerado um grid de largada. No meio e no final da pista, a disposição poderá ser diferente.

As expectativas em torno do desempenho da presidente levam ainda em conta a questão do gênero. Há muita curiosidade para saber se uma mulher terá melhor desempenho que um homem no comando da Nação. Especula-se que suas dificuldades serão menores nos espaços do obreirismo e nas áreas sociais (programas assistenciais) e mais complexas nas frentes econômica e política. A permanência do ministro Guido Mantega na Fazenda, a escolha de um perfil técnico para o Banco Central (Alexandre Tombini) e a nomeação de Antônio Palocci para comandar a Casa Civil, tendo sido ele ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula, lhe darão conforto e garantia de que a política econômica estará sob controle. E para ajudá-la a administrar a relação com as esferas política e jurídica a presidente terá à disposição a experiência de seu vice, Michel Temer, professor de Direito Constitucional e presidente do PMDB, que dirigiu a Câmara dos Deputados por três vezes. Com esse respaldo são mínimas as possibilidades de grandes crises na frente política.

Por último, a pergunta recorrente: Lula mandará no governo Dilma? Trata-se de hipótese débil. A dirigente deverá impor seu estilo. O ex-presidente, por sua vez, quer ver a glória da sucessora. A intromissão descabida na gestão seria um desastre para ambos. É evidente que deverá ser acionado para dar conselhos, principalmente em circunstâncias tormentosas. Luiz Inácio, como animal político, continuará a circular por muitas plagas, usufruindo o prestígio que angariou, fazendo palestras, recebendo honrarias, comovendo-se com aplausos. Sabe, porém, que há uma liturgia de poder a ser preservada. Sob pena de esboroamento do edifício que construiu. E queima da própria imagem.

JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO.

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