O alerta da crise turca

Balas perdidas do tiroteio entre os governos americano e turco têm atingido também o Brasil

O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2018 | 03h00

Balas perdidas do tiroteio entre os governos americano e turco têm atingido também o Brasil, afetando o câmbio e outros setores do mercado financeiro. Assustados pela crise na Turquia, investidores têm retirado dinheiro de vários países emergentes, pressionando suas moedas. O dólar chegou a R$ 3,91 na abertura das operações de ontem. A moeda brasileira teve alguma recuperação nas horas seguintes, acompanhando o movimento de outras moedas contaminadas pelo conflito. A turbulência no começo da semana foi consequência das novas tarifas sobre importações de aço e de alumínio turcos, dobradas para 50% e 20%. O lance, anunciado na sexta-feira passada em um tuíte do presidente Donald Trump, é parte de uma crise política entre os dois países. A iniciativa, como outras semelhantes, repercutiu em bolsas de todo o mundo, incluída a de Nova York. O impacto no Brasil seria bem mais preocupante se as contas externas fossem mais frágeis e o volume de reservas cambiais estivesse muito abaixo dos níveis mantidos há mais de um ano, na faixa de US$ 370 bilhões.

No caso da Turquia, as ações e ameaças do presidente americano atingem um país vulnerável por problemas causados por erros de política econômica. As decisões autoritárias do presidente Recep Tayyip Erdogan têm afetado a economia, alimentando a inflação, desajustando o balanço de pagamentos e assustando financiadores e investidores. Os erros foram mantidos e até ampliados com a piora da crise diplomática.

A economia turca tem crescido em ritmo chinês, com taxas anuais em torno de 7%, mas em marcha forçada e insustentável. Em julho, a inflação anual chegou a 15,85%. O déficit em transações correntes – formado pelas balanças comercial, de serviços e de rendas – está em torno de 5,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e seu financiamento é hoje difícil e caro. Com os desarranjos causados pela política interna e as condições externas desfavoráveis, neste ano a lira turca já se desvalorizou cerca de 80%. Também isso alimenta a inflação, por causa do encarecimento dos bens importados.

Os juros básicos, determinados pelo Banco Central (BC), chegaram a 17,75%, mas a política monetária, segundo analistas turcos e estrangeiros, deveria ser mais apertada para conter os preços. O presidente Erdogan, no entanto, se opõe a um aperto maior e aponta a alta de juros como fator inflacionário.

Com essa opinião, ele contraria a teoria econômica geralmente aceita e defende uma política oposta àquela praticada, normalmente, em todo o mundo. O Brasil conhece a lição. Ao intervir na política monetária em 2011, a presidente Dilma Rousseff abriu espaço a pressões inflacionárias e prejudicou a credibilidade do BC. A política foi revertida a partir de abril de 2013, mas, num ambiente de ampla desorganização das contas públicas e dos preços monitorados, a inflação subiu até janeiro de 2016.

Na Turquia, os erros continuam. O presidente Erdogan exortou empresários e demais cidadãos a trocar dólares e euros por liras. O Banco Central diminuiu o depósito compulsório dos bancos, jogando bilhões no mercado – mais combustível para a inflação.

As tensões entre os governos turco e americano estão ligadas inicialmente a divergências quanto a grupos envolvidos na guerra civil da Síria. A crise bilateral agravou-se com a recusa americana de entregar às autoridades turcas o clérigo Fethulla Gulen, acusado por Erdogan de envolvimento numa tentativa de golpe. A proposta era trocar o clérigo por um pastor americano detido na Turquia. A recusa do governo turco de libertar o pastor evangélico Andrew Brunson foi um dos motivos alegados por Trump para aumentar as sanções nos últimos dias.

Com bom volume de reservas, inflação contida e conta corrente com déficit inferior a 1% do PIB, financiável com folga por investimento estrangeiro direto, o Brasil tem resistido bem às turbulências externas. Mas seria muito menos vulnerável se o programa de ajustes fiscais e reformas estivesse mais avançado. É prudente ver a crise da Turquia como mais um alerta para o Brasil.

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