O alerta da Feira da Madrugada

A falta de segurança da chamada Feira da Madrugada, realizada todos os dias no Brás, justifica plenamente a atitude drástica tomada pela Prefeitura da capital, que determinou a desocupação do local pelo tempo necessário para a solução do problema. A medida foi recomenda pelo Ministério Público Estadual, que constatou a situação precária em que funcionava a feira, sem equipamentos contra incêndio, alta concentração de materiais inflamáveis e falta de espaço para a circulação dos mais de 200 ônibus que estacionam naquele local diariamente.

O Estado de S.Paulo

06 Maio 2013 | 02h03

O diagnóstico das autoridades municipais é ainda mais severo. Segundo o prefeito Fernando Haddad, "o local desrespeita a segurança dos próprios trabalhadores e dos visitantes". De tal forma que hoje, em caso de incêndio, os bombeiros não teriam como entrar ali. Além de uma revisão geral das instalações hidráulicas e elétricas, acrescentou, será preciso aumentar a distância, que é muito pequena, entre os 4 mil boxes da feira. Por sua vez, o secretário municipal do Trabalho, Eliseu Gabriel, não hesitou em dizer que "ali os riscos são maiores do que da boate de Santa Maria", no Rio Grande do Sul, onde um incêndio, no final de janeiro, deixou um saldo de mais de 240 mortos.

Isso dá uma ideia da gravidade da situação. Os 4 mil boxes da feira, que recebe 25 mil visitantes por dia, ocupam galpões com área total de 137 mil metros quadrados e, naquelas condições precárias de segurança, qualquer acidente poderia provocar ali uma enorme tragédia. Como bem disse o promotor César Dario Mariano da Silva, se acontecesse ali um incêndio, seria uma catástrofe inimaginável, muito maior do que a que ocorreu no Sul.

O fechamento da feira e a divulgação dos motivos que levaram a essa decisão certamente deixam os paulistanos inquietos e se perguntando como foi possível o poder público tolerar que se chegasse a uma situação como essa. É sabido que as coisas nunca foram como deveriam ser na Feira da Madrugada, que funciona naquele local desde 2004. Uma investigação policial constatou, em 2011, que funcionava ali um vasto esquema de corrupção, com boxes sendo vendidos por até R$ 500 mil. Diante disso, o então prefeito Gilberto Kassab chegou a fechar a feira para recadastrar os comerciantes e criou um grupo de trabalho para estudar medidas destinadas a garantir a segurança no local.

Já naquela época deveria ter sido determinada a desocupação da feira. Haddad promete agora que, depois de sua retirada e cadastramento, os comerciantes poderão voltar ao local, que vai passar por reformas. Como a área é de propriedade da União, o prefeito diz já ter chegado a um acordo com o governo federal para a criação nela de um centro de compras que respeite as normas de segurança.

O caso da Feira da Madrugada chama inevitavelmente a atenção para a segurança das boates, casas de show e salões de clube da capital, até mesmo pelo paralelo feito pelo secretário Eliseu Gabriel com a boate Kiss, de Santa Maria. O incêndio nessa boate fez com que em todo o País as autoridades prometessem rever as normas de segurança nesses locais. Como infelizmente sempre acontece em ocasiões como essa, passado o susto, o entusiasmo das autoridades arrefece e as medidas prometidas em geral ficam pela metade, quando muito.

Os paulistanos - principalmente os jovens frequentadores de casas noturnas - descobriram que têm boas razões para não se sentirem seguros naqueles locais. Foram negados pelo Corpo de Bombeiros, nos últimos dois anos, 70% dos pedidos de auto de vistoria feitos por aqueles estabelecimentos. Foram aprovados só 194 de 636 pedidos.

Na capital, apenas 297 locais capazes de receber mais de 250 pessoas - entre os quais se incluem também os templos - tinham então alvará de funcionamento da Prefeitura. Outros 234 tinham pedidos tramitando na lenta burocracia municipal. Tiveram eles sua situação regularizada? Em que pé estão as coisas? A Prefeitura deve aos paulistanos respostas a essas perguntas.

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