O alerta do Banco Mundial

A economia global deve crescer 2,2% neste ano, pouco menos que no ano passado (2,3%), mas com menor instabilidade, segundo a nova projeção do Banco Mundial (Bird). A expansão geral continuará sendo puxada pelos países emergentes e em desenvolvimento, mas boa parte desses, incluído o Brasil, está operando muito perto de sua capacidade máxima ou até acima desse limite. Não se deve esperar desse grupo novos grandes arranques, pelo menos até surgirem os efeitos de mais investimentos em infraestrutura e outros meios de produção e em produtividade. Em conjunto, essas economias devem expandir-se neste ano 5,1%, pouco mais que em 2012 (5%). O crescimento da China, a segunda maior potência econômica do mundo, deve diminuir ligeiramente, de 7,8% no ano passado para 7,7% em 2013.

O Estado de S.Paulo

17 Junho 2013 | 02h04

De modo geral, o ambiente externo será menos sujeito a choques, mesmo na Europa, e o aumento de volume do comércio mundial deverá passar de 2,7% para 4%, mas os preços das matérias-primas será menor e isso afetará as exportações brasileiras e de boa parte dos países sul-americanos.

O Brasil já paga um preço alto pela excessiva dependência das commodities, um reflexo do baixo poder de competição de sua indústria, da relação de tipo colonial com a China e, naturalmente, dos erros cometidos nos últimos dez anos por uma diplomacia comercial terceiro-mundista. Nenhum destes comentários sobre a política de comércio aparece, é claro, no relatório do Bird, mas todos se referem a fatos inegáveis, bem conhecidos e de consequências desastrosas para o País.

Os autores do relatório repetem, a propósito da América Latina, a advertência apresentada em estudo recente por uma equipe do FMI. A diferença entre a produção efetiva e a produção possível praticamente desapareceu para o conjunto dos países, no ano passado. Não sobra, portanto, espaço para um crescimento seguro bem maior que o de 2012.

O mais prudente, nessas condições, seria evitar um aquecimento muito forte da atividade. Mas provavelmente, advertem os economistas do banco, a evolução será no rumo do perigo. "Com a expectativa de crescimento mais acelerado em 2014 e em 2015, em parte por causa de políticas monetárias e fiscais relativamente frouxas, pressões inflacionárias devem formar-se e os déficits em conta corrente, aumentar."

As autoridades brasileiras deveriam ter levado a sério esses perigos há mais tempo. No País, inflação alta e contas externas em deterioração já são condições bem conhecidas há mais de um ano. Para o Brasil, espera-se uma aceleração do crescimento para 2,9% em 2013 e perto de 4% até 2015, como consequência, segundo o relatório, dos gastos em infraestrutura e do consumo privado ainda forte. Também se preveem políticas monetária e fiscal expansionistas. O documento deve ter sido concluído antes da segunda elevação dos juros, mas o cenário é basicamente correto, principalmente por causa da piora das contas públicas.

Com a economia provavelmente operando com todo o potencial, "a aceleração do crescimento manterá a inflação perto do limite da margem". Ao mesmo tempo, "a demanda interna robusta, combinada com a demanda externa relativamente fraca e com preços mais baixos para as commodities, sustentará o déficit na conta corrente do balanço de pagamentos perto de 3% do PIB em 2015".

As duas possibilidades já foram confirmadas, fazem parte do debate econômico no Brasil, e só uma política bem mais séria poderá afastar a inflação do teto de 6,5% e aumentar a segurança das contas externas. A novidade importante, se existe alguma, é a ênfase no tratamento desses problemas, no documento do Bird. Os desajustes principais da economia brasileira são agora bem conhecidos em todo o mundo - e a Standard & Poor's tornou-os mais visíveis ao qualificar a perspectiva do País como negativa. Mas o governo parece enxergar mal os perigos. Se os enxergasse bem, teria renunciado a novas medidas eleitoreiras de estímulo ao consumo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.