O antagonista de Obama

Com a desistência do ex-senador Rick Santorum de disputar a indicação do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos, terminou para todos os efeitos o ciclo de prévias no âmbito da legenda para a escolha do desafiante do presidente Barack Obama nas eleições de 6 de novembro. Embora dois outros aspirantes, Newt Gingrich e Ron Paul, ainda não tenham jogado a toalha, não resta a menor dúvida de que a convenção nacional republicana marcada para 27 de agosto fará o que se previa que fizesse desde sempre - ratificará o nome do empresário e ex-governador de Massachusetts Mitt Romney para tentar reaver a Casa Branca conquistada pelos democratas na memorável disputa de 2008, quando o país elegeu pela primeira vez um presidente negro.

O Estado de S.Paulo

12 Abril 2012 | 03h08

Ao mesmo tempo, o início efetivo da campanha remove da política sucessória americana a agenda medieval em que a direita religiosa enquadrou as primárias republicanas, obrigando o mais moderado dos competidores, o próprio Romney, a competir com os demais pela primazia de encarnar o ultramontano conservadorismo social das bases partidárias. Além de se comportar com o fervor de um cristão-novo na denúncia do planejamento familiar, aborto, casamento gay e outros presumíveis ultrajes aos valores americanos, no seu momento mais humilhante ele abjurou a reforma do sistema de saúde que implantou no seu Estado e que serviu de modelo para Obama no plano nacional.

Nem por isso conquistou os corações dos caçadores de bruxas do seu partido. Desprovido de carisma, transpirando insinceridade, com uma formidável propensão a tropeçar em palavras e embaralhar ideias, de Romney se diz que não tem inimigos e os amigos não gostam dele. Se ainda assim se firmou na liderança das prévias - conta com 625 votos garantidos na convenção partidária, ante 273 do desistente Santorum - foi pelo efeito combinado de três fatores. Primeiro, a existência de um número suficiente de correligionários para os quais a prioridade não era consagrar um zelota com quem comungassem, mas alguém capaz de derrotar Obama, o mal absoluto.

Em segundo lugar, a organização da campanha de Romney foi soberba, em contraste com o amadorismo de seus rivais. Por fim - mas não menos importante -, Romney tinha dinheiro a rodo para gastar. Dono de uma fortuna que beira US$ 250 milhões, graças aos negócios nos mercados de capitais, nem precisaria das doações dos republicanos abonados para aplastar os adversários. Em janeiro, no que foi um escândalo de mídia mais do que uma desgraça para as suas aspirações no partido, revelou-se que em 2010 ele faturou US$ 27 milhões e pagou de imposto de renda o equivalente ao que pagaria um contribuinte com renda de US$ 80 mil.

Esse é o primeiro campo de batalha escolhido pelo estado-maior de Obama para atacar o republicano. Não é incoerente com a sua pregação pela reforma de um sistema que permite aos executivos que conhecem o caminho das pedras pagar menos imposto do que as suas secretárias. E anteontem, enquanto Santorum anunciava a sua retirada, o presidente, numa típica jogada eleitoral, defendeu a criação de um tributo especial para quem receba mais de US$ 1 milhão por ano. Mas investir contra Romney na questão do dinheiro parece incoerente. A equipe de Obama prepara-se para gastar na campanha US$ 1 bilhão - um recorde mundial.

A volatilidade da política americana não autoriza prognósticos firmes sobre o desfecho do embate de novembro. Há dois anos, os republicanos surraram os democratas nas eleições de meio de mandato para a renovação do Congresso. Em meados de 2011, Obama ficava 11 pontos atrás de Romney nas pesquisas com eleitores independentes - a maioria moderada que costuma decidir eleições nos EUA. Agora, estão empatados. O republicano precisa desatar o nó: como pedir a esse eleitorado que esqueça as enormidades que dizia nas primárias, sem alienar o público radical a que se curvara - e torcer para que a economia em convalescença sofra uma recaída na reta final da sucessão.

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