O apelo de María Corina

Ainda não é tarde, mas esgota-se rapidamente o tempo para que a diplomacia brasileira reveja sua indefensável posição de apoio ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e passe a lhe exigir respeito aos valores básicos da democracia em seu país. O erro de avaliação do governo petista - motivado por imperativos ideológicos, contrários ao interesse nacional - ficou ainda mais claro quando a líder oposicionista venezuelana María Corina Machado expôs, no Senado brasileiro, o caráter ditatorial de Maduro e cobrou dos países democráticos da América Latina uma postura mais crítica em relação às graves violações de direitos protagonizadas à luz do dia pelo regime chavista. Não é possível falar em "diálogo" enquanto o governo brasileiro der toda a atenção apenas a Maduro, reservando aos opositores do presidente uma olímpica indiferença - atitude que, nas palavras de María Corina, equivale a "cumplicidade".

O Estado de S.Paulo

04 Abril 2014 | 02h08

A perseguição a María Corina simboliza a truculência do regime chavista. Uma das principais deputadas da Venezuela, eleita com expressiva votação, ela foi cassada no final de março por decisão unilateral do presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, líder da tropa de choque do chavismo. O argumento é de que a parlamentar havia violado a Constituição ao integrar momentaneamente a delegação do Panamá na Organização dos Estados Americanos (OEA) - servidores públicos venezuelanos não podem aceitar cargos de governos estrangeiros sem autorização legislativa. Mas María Corina não aceitou cargo nenhum; ela fora convidada pelo Panamá para expor na OEA a situação real de seu país. Ademais, mesmo que tivesse sido irregular, a atitude de María Corina deveria ter sido julgada não pela Assembleia, e sim pelo Tribunal Supremo de Justiça. Foi-lhe negado o direito de defesa, e ao tribunal restou o triste papel de homologar a cassação.

Esse flagrante desrespeito à Constituição, uma criação do caudilho Hugo Chávez, ocorreu na véspera do início de uma missão de chanceleres da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) para tentar estabelecer um "diálogo" no país. A indisposição dos chavistas para qualquer forma de verdadeiro entendimento ficou clara com a cassação de María Corina - sem falar na prisão, sem processo, de outro líder opositor, Leopoldo López -, mas os zelosos ministros sul-americanos não reservaram nenhuma palavra de censura a respeito.

Por esse motivo, María Corina disse aos senadores brasileiros o óbvio: que a Unasul "tem um problema sério de legitimidade" e "não é um mediador objetivo e imparcial". Nada disso surpreende, pois desde a sua fundação, em 2008, a Unasul se presta a defender os interesses chavistas. Para isso parece ter sido criada. A reação do Itamaraty à crítica de María Corina, no entanto, indica que tudo vai ficar como está. O ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, defendeu a legitimidade da Unasul na mediação da crise e declarou que os chanceleres tiveram "amplo acesso a todas as forças políticas, econômicas, sociais, aos estudantes", estabelecendo um "diálogo muito aprofundado" que "conseguiu gerar uma confiança muito grande entre essas forças políticas e a Unasul".

Não é o que dizem os renovados protestos nas ruas da Venezuela e a dura repressão aos opositores. A Anistia Internacional acusou as forças chavistas de promoverem "tortura e tratamento desumano", e a Conferência Episcopal da Venezuela classificou o governo Maduro de "totalitário".

Foi diante desse cenário que María Corina veio ao Brasil apelar à sensibilidade da presidente Dilma Rousseff, ela mesma uma perseguida política durante a ditadura militar. "Esperamos que todos os líderes que sofreram perseguição tenham solidariedade, uma empatia maior com o que estamos vivendo na Venezuela."

Soa como esperança vã. Ao alinhar-se a Maduro, legitimando-o justamente no momento em que o chavista mais se empenha em esmagar qualquer forma de oposição, o governo Dilma escolheu a causa que mais lhe agrada.

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