O aperto perde de novo

Quando o socialista François Hollande se elegeu presidente da França dois domingos atrás, a chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou que o receberia "de braços abertos" na visita logo agendada para hoje em Berlim. Embora ele tenha sido o primeiro candidato à chefia do governo de um país europeu do topo da liga a centrar a sua campanha no combate às políticas de austeridade defendidas por Merkel para a crise de crédito no Continente - e embora naquele domingo a maioria do eleitorado grego também tivesse votado contra o corte do gasto público, enquanto na Holanda se desfazia a coligação de governo -, os partidários da chanceler acreditavam que ela ainda se sentiria segura para abraçar Hollande exibindo as suas mãos de tesoura.

O Estado de S.Paulo

15 Maio 2012 | 03h10

Mas a segurança da figura política mais popular em seu país, com o aval de 61% dos compatriotas à orientação que fez prevalecer na União Europeia (não fosse a Alemanha a maior economia do bloco), acaba de sofrer um grande abalo. Nas eleições de anteontem para o governo da Renânia do Norte-Vestfália, o seu partido, a União Democrata Cristã, tomou a maior sova em disputas no Estado desde a criação da sigla, em 1945. Ela obteve 26% dos votos para o Parlamento local, ante 39% do Partido Social Democrata. O Partido Verde, seu aliado, alcançou 12%. O resultado promoveu a líder social-democrata renana, Hannelore Kraft, à condição de rival número um de Merkel no plano nacional.

O tamanho da sua derrota pode ser avaliado por dois critérios. Primeiro, pelo que é a Renânia do Norte-Vestfália. Com cidades como Colônia e Düsseldorf, e abrangendo o Ruhr, o coração industrial da Alemanha, trata-se do mais populoso e mais desenvolvido dos 16 Länder (Estados) alemães. Os seus 18 milhões de habitantes - ou 20% do total do país - compõem uma população maior que a da Grécia e uma economia maior que a da Turquia. Na política, diz-se que, para onde os renanos se inclinarem, se inclinará a Alemanha. A segunda medida do baque de Angela Merkel advém do temerário desafio lançado pelo seu principal correligionário na região, o ministro federal do Ambiente, Norbert Röttgen.

No que se revelaria um histórico gol contra, ele equiparou a disputa local a um referendo sobre a posição da chanceler em relação à dívida europeia. Afirmou que as urnas diriam se o rumo que ela adotou se fortaleceria, ou, caso vencesse o partido "pró-endividamento", se enfraqueceria. Como que apanhando a deixa, os social-democratas tiveram a esperteza de fazer os seus comícios em espaços públicos abandonados, como antigas áreas de recreação, para ressaltar o efeito dos cortes de gastos em um quadro de quebra de arrecadação provocado pela desaceleração da economia e do desemprego em alta. É exatamente o argumento dos que sustentam, como o vitorioso Hollande, que austeridade não é destino e que o remédio para a crise é incentivar a retomada do crescimento.

Os eurocratas de ambos os lados da fronteira franco-alemã passaram praticamente em claro as últimas noites em busca de uma fórmula para conciliar a insistência da chanceler na primazia do aperto fiscal com a demanda do presidente recém-eleito por um pacto europeu pela produção, em pé de igualdade com o pacto da austeridade de Merkel (e do antecessor de Hollande, Nicolas Sarkozy). O compromisso, que prevê um teto de 3% do PIB para o déficit público e um limite de 60% para as dívidas soberanas dos parceiros da União Europeia, foi assinado por 25 dos 27 líderes do bloco, mas em alguns países, como a Irlanda, pode ser rejeitado em referendo. O impasse político na Grécia, à beira de deixar a área do euro, e o agravamento da crise bancária na Espanha se somam ao voto renano para debilitar a chanceler.

Em seu país, onde haverá eleições no próximo ano, é como se a população se dissesse favorável à austeridade, "mas não no meu pedaço". A crise já derrubou 11 governos europeus. Primeiro, foram-se os partidos, sem distinção de cor, que estavam no poder. Agora é a vez daqueles que seguem o que aos seus líderes parece ser a única via para resolver a crise - na contramão da vontade popular.

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