O ataque ao PCC

Agora que a investigação do Ministério Público Estadual (MPE) escancarou o tamanho e o poder verdadeiros do Primeiro Comando da Capital (PCC) - ambos muito maiores do que deixavam entender as avaliações otimistas do governo -, é preciso iniciar o quanto antes um ataque sem trégua a essa organização criminosa, que representa um desafio intolerável à autoridade do Estado. Não se está com essa afirmação exagerando a gravidade da situação.

O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2013 | 02h16

Prova disso é que, como se não bastasse a enorme lista de crimes cometidos por eles dentro e fora dos presídios, os bandidos ainda tiveram a audácia de planejar a morte do governador Geraldo Alckmin. É o que prova uma conversa telefônica entre líderes do PCC, em 11 de agosto de 2011: "Você sabe de tudo o que aconteceu, cara, na época em que 'nóis' decretou ele". Decretar é a gíria para executar. Quem chega a esse ponto, depois de criar "tribunais" e "leis" próprios, não conhece mais limites.

Depois de se reunir com a cúpula da segurança pública, na segunda-feira, Alckmin anunciou medidas importantes para combater o PCC, como identificação e punição de policiais que se corrompem em sua relação com essa organização e a utilização de equipamentos mais modernos e eficientes para bloquear celulares nos presídios e evitar que sejam usados pelos bandidos para planejar suas ações, como ocorre hoje. É de esperar que dessa vez o governo coloque todo o seu empenho em tornar realidade essas providências que, como se sabe, há muito tempo são indispensáveis para neutralizar o PCC.

As escutas telefônicas feitas durante a investigação do MPE mostraram que são frequentes os casos de achaques de policiais civis e militares contra bandidos bem situados na hierarquia do PCC, presos por qualquer pretexto e mantidos em delegacias até que a "negociação" se conclua. Outro exemplo de crime cometido por maus policiais é o de agentes do Deic flagrados em escuta oferecendo ao PCC arquivos de computador e pen drives apreendidos em operação que terminou com a morte de um bandido.

Como esses, há inúmeros outros casos. Por isso, o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, disse esperar que o MPE "compartilhe conosco as provas (de que dispõe)para que possamos tomar providências". Independentemente disso, estão em curso várias investigações para apurar denúncias chegadas à Secretaria. Que o crime organizado tenta corromper policiais, aqui e em qualquer parte do mundo, é coisa sabida. Se dessa vez a polícia paulista vai fazer o que fazem as boas polícias dos países desenvolvidos para combater esse mal, só o tempo dirá.

Com relação aos celulares, Alckmin disse que "já está aberto o pregão para bloqueadores (a serem instalados) em 23 presídios. Esperamos concluir o processo licitatório em novembro e em dezembro começar as instalações". Mesmo que esses equipamentos realmente produzam os resultados que deles são esperados, é preciso que essa medida seja seguida de ações enérgicas para combater a corrupção nos presídios. Agentes penitenciários venais poderão ser utilizados pelo PCC para estabelecer novas formas de comunicação, se os bloqueadores de fato funcionarem.

Uma suspeita nunca inteiramente dissipada é a de que houve tolerância com difusão de celulares nos presídios - em São Paulo e em outros Estados - para, por meio de escuta de suas conversas, saber as intenções e planos dos bandidos. Se a suspeita é procedente, a investigação do MPE leva à conclusão de que, além de ilegal, essa tática não funciona. Se o preço para mapear uma organização criminosa é tolerar que ela use um instrumento que só a fortalece, salta aos olhos que ele não vale a pena ser pago.

Acabar com os celulares nas prisões e isolar a sua cúpula no Regime Disciplinar Diferenciado - o que depende da Justiça - são medidas fundamentais para conter e desarticular o PCC. Por isso mesmo, ele vai reagir, mas o governo do Estado não pode se amedrontar. É o que promete Alckmin e se espera que cumpra.

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