O atraso das obras para a Copa de 2014

Divergências com o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014, Ricardo Teixeira, sobre a sucessão na Fifa, a entidade mundial do futebol, podem ter levado o presidente desta última, Joseph Blatter, a mudar sua opinião a respeito da atuação dos dirigentes do esporte no País e das autoridades envolvidas na organização da competição. Desde a escolha do Brasil para sediar a próxima Copa, Blatter elogiava a atuação do COL brasileiro e não apontava problemas na organização da competição. Em encontro com jornalistas estrangeiros segunda-feira passada, na Suíça, porém, fez críticas duras - e procedentes.

, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2011 | 00h00

A mudança surpreende. Há pouco, numa reunião com dirigentes brasileiros na Suíça, Blatter elogiou o trabalho do COL, dizendo ser "muito bom" seu "comprometimento e progresso" na organização da Copa. Agora, observou que, "se formos comparar com a África do Sul três anos antes da Copa, há claramente um atraso do Brasil em relação ao estágio onde estavam os sul-africanos", disse. "A Copa é amanhã, mas os brasileiros acham que é depois de amanhã", declarou.

Embora a Fifa estivesse preocupada com os preparativos para a Copa, Blatter nunca se manifestara de maneira tão clara sobre a questão. Deixava a tarefa para o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke. Em maio, por exemplo, numa de suas mais conhecidas manifestações, Valcke afirmou que o relatório sobre os preparativos da Copa de 2014 que chegara a suas mãos era preocupante. "Há alguns estádios com o alerta vermelho já aceso. É impressionante como o Brasil já está atrasado. E não estou falando apenas do Morumbi (na época, ainda cogitado para a abertura da Copa) e do Maracanã, estou falando de vários estádios", advertiu então.

Nessa semana, Blatter disse estar especialmente preocupado com a indefinição em relação ao Itaquerão, o estádio a ser construído em Itaquera para a abertura da Copa. A maior parte das obras para a Copa do Mundo precisa estar concluída até 2013, quando o Brasil sediará a Copa das Confederações, mas Blatter tem dúvidas sobre isso. "Corre-se o risco de que nem o Rio de Janeiro nem São Paulo possam organizar partidas", porque os estádios não estarão adequados para receber jogos da Copa das Confederações, que será uma espécie de teste para o Mundial.

Como era de esperar, os responsáveis pelos preparativos da Copa negaram a existência de problemas ou de atraso nas obras. O ministro do Esporte, Orlando Silva, disse que, para tranquilizar Blatter, vai convidá-lo para uma visita ao País, durante a qual verá que as obras estão sendo executadas "a todo vapor" e que os prazos acertados com a Fifa serão observados.

Em nota, a CBF desmentiu que haja o risco de as obras do Maracanã não serem concluídas até a Copa das Confederações, e quanto ao Itaquerão afirmou que, "apesar de a obra ainda não ter sido iniciada, temos trabalhado de forma intensa (...) para equacionar as últimas questões técnicas".

A polêmica entre Blatter e Teixeira pode ter alguma coisa a ver com a próxima eleição na Fifa, na qual Blatter tentará a reeleição e o dirigente brasileiro apoia outro candidato, o asiático Mohamed bin Hamman.

Quaisquer que sejam as razões para a mudança de atitude do presidente da Fifa, não se pode deixar de reconhecer que as críticas ao atraso nos preparativos para a realização da Copa no País são fundamentadas. As obras de alguns estádios estão atrasadas, e isso certamente inclui aqueles programados para sediar o jogo de abertura (Itaquerão) e a final (Maracanã).

Mais preocupantes ainda são as obras de infraestrutura, de responsabilidade do setor público, para assegurar o transporte adequado aos turistas que virão ao Brasil, e sobre as quais Blatter nada disse. O setor mais atrasado é o aeroportuário. Com a criação da Secretaria de Aviação e a profissionalização da gestão da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária, o governo federal mostrou estar atento ao problema. Mas é preciso executar com rapidez e eficácia os planos de expansão e melhoria, pois o prazo é curto. A Copa é amanhã, como disse Blatter.

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