O BC e a turbulência externa

O Brasil tem instrumentos para lidar com movimentos bruscos nos mercados financeiro e cambial, disse o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, em Londres, tentando passar uma mensagem tranquilizadora aos investidores. Diante das incertezas quanto às políticas fiscal e monetária dos Estados Unidos, as preocupações do auditório são facilmente compreensíveis, assim como o cuidado de Tombini. Até há poucos dias, a agitação nos mercados era associada principalmente à esperada mudança de rumo do Federal Reserve, o banco central americano, com a redução dos estímulos mensais de até US$ 85 bilhões. Essa expectativa permanece, mas a maior fonte de insegurança, nos últimos dias, tem sido o impasse entre a Casa Branca e a oposição em torno do orçamento para o ano fiscal iniciado em 1.º de outubro. Se essa disputa impedir ou atrasar a elevação do teto da dívida federal, o governo terá dificuldade para evitar um calote, a redução dos gastos federais será desastrosa e as consequências serão sentidas em todo o mundo.

O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2013 | 02h04

Nenhum governo sério pode menosprezar esses perigos, mesmo quando se mantém a esperança de uma solução para o problema da dívida pelo menos no último instante, como já ocorreu nos Estados Unidos. Diante do risco visível para todos, a prioridade para qualquer investidor é saber se o seu dinheiro terá alguma segurança em caso de turbulência. O papel de Tombini foi apresentar um BC preparado para enfrentar os desafios. As últimas intervenções, destinadas a limitar a depreciação do real, foram executadas com razoável sucesso e - detalhe importante - sem queima de reservas. O Brasil, disse o presidente do BC, dispõe de moedas estrangeiras em volume suficiente para atuar no mercado quando necessário. De fato, reservas acima de US$ 370 bilhões podem ser um importante fator de segurança.

Bons estoques de moedas fortes, no entanto, são apenas um dos componentes da segurança, em caso de instabilidade internacional. O déficit na conta corrente do balanço de pagamentos e a forma de seu financiamento também são relevantes para a avaliação do quadro. O BC estima para este ano um déficit de US$ 75 bilhões nessa conta, equivalente, segundo suas projeções, a 3,35% do PIB.

Em 2012, esse déficit correspondeu a 2,41% do PIB. Há uma indisfarçável piora das contas externas e também das condições de cobertura do buraco nas transações correntes. No ano passado, o investimento estrangeiro direto correspondeu a 2,9% do PIB e foi mais que suficiente para essa função. Neste ano, segundo as projeções do BC, essa proporção deve ficar em 2,68%, bem abaixo da desejável. Esse tipo de investimento é destinado diretamente ao setor empresarial, atende a objetivos de longo prazo e é menos instável que outros tipos de aplicação.

A cobertura deverá ser facilmente completada com outras classes de investimento. De toda forma, o arranjo será menos que ideal. Apesar disso, Tombini descreveu o déficit brasileiro como "confortavelmente financiado". A descrição será razoável, se "confortável" for entendido como sinônimo de "sem endividamento".

Mas a deterioração das contas externas resulta principalmente de fatores fora do alcance do BC. A causa principal do aumento do déficit em conta corrente é a piora da balança comercial de mercadorias.

Segundo as projeções da instituição, a receita de exportações deve ficar em US$ 241 bilhões, pouco menos que o valor alcançado em 2012, de US$ 242,58 bilhões. O gasto com importações, estimado em US$ 239 bilhões, deve ser, no entanto, 7% maior que o do ano passado. O grande problema é esse descompasso, decorrente de problemas estruturais, bem mais graves que a valorização cambial acumulada em anos.

Mesmo o desajuste cambial teria sido provavelmente menor, se a inflação fosse mais baixa. Mas, segundo Tombini, a inflação está controlada e convergirá para a meta de 4,5%. Faltou um detalhe relevante: isso dependerá da política de juros, se o governo insistir na gastança.

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