O 'Bolsa Voto'

Pesquisa de intenção de voto do Ibope mostra que o eleitorado mais fiel à presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, é formado predominantemente por beneficiários do Bolsa Família. Essa relação, demonstrada pelo Estado (5/9), comprova que os mais de dez anos de distribuição de benefícios sociais criaram e consolidaram a enorme clientela do governo petista - aquela que apoia a presidente com fervor e dificilmente vai alterar seu voto nem mesmo diante das evidências de seus erros administrativos.

O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2014 | 02h04

Entre o final de agosto e o começo de setembro, a intenção de voto em Dilma entre os beneficiários do Bolsa Família cresceu de 50% para 57% na simulação de segundo turno contra Marina Silva. Já Marina caiu de 37% para 32% nessa faixa de eleitores. Em nenhum outro estrato a diferença a favor de Dilma é tão grande.

Os eleitores que são beneficiados de forma direta e indireta pelo Bolsa Família somam 23% do total, o equivalente a 32,6 milhões de pessoas. Se forem somados os beneficiários de outros programas sociais, como Minha Casa, Minha Vida, ProUni e Pronatec, o eleitorado que recebe alguma assistência do governo chega a 37% do total, algo em torno de 52,5 milhões de pessoas. Nesse universo, Dilma bate Marina por 48% a 39% em um eventual segundo turno - isto é, a diferença a favor da presidente é bem mais estreita do que quando se considera o eleitorado que recebe apenas o Bolsa Família.

Com isso, nota-se a importância do Bolsa Família para a manutenção da lealdade eleitoral, algo que já se intuía e que, agora, se verifica na prática por meio de pesquisas. Quando se exclui do universo de eleitores que recebem benefícios sociais aqueles que ganham o Bolsa Família, Dilma fica atrás: Marina ganharia, em segundo turno, por 47% a 38%.

Ou seja: não é todo benefício social que se traduz em voto firme para os petistas, e sim basicamente o Bolsa Família - aquele que deveria ser provisório e que é cada vez mais permanente, pois o governo que dele se orgulha não só é incapaz de criar as condições para que os beneficiários possam algum dia deixar de recebê-lo, como espera ganhar mais votos quanto maior for o contingente de assistidos.

Quando se analisa o eleitorado que não recebe nem o Bolsa Família nem qualquer outro auxílio do Estado, observa-se que o fôlego do PT e de Dilma diminui de forma acentuada. Nessa fatia, que representa 63% do total de eleitores, Marina abre uma diferença de 16 pontos porcentuais em relação a Dilma (50% a 34%) num segundo turno. Esse estrato responde por cerca de 70% das intenções de voto na candidata de oposição no eventual segundo turno, enquanto pouco mais da metade do total de intenções de voto em Dilma está entre esses eleitores. Pode-se dizer, portanto, que os eleitores que não recebem benefícios sociais não se sentem constrangidos ou impelidos a apoiar Dilma ou o PT - e são bem mais críticos em relação ao atual governo, pois boa parte deles apoia a oposição.

Ainda assim, o programa de governo do PSB prevê não só a manutenção do Bolsa Família, como sua transformação em "política de Estado", desvinculando-o dos desejos dos partidos e governantes de turno. Movimento semelhante já havia sido feito pelo candidato tucano, Aécio Neves. Logo, não há nenhuma liderança política representativa com disposição suficiente para discutir se o Bolsa Família deve ou não continuar a existir - mesmo porque, conforme mostrou a pesquisa do Ibope, nada menos que 75% dos eleitores são favoráveis à sua manutenção.

Nada disso, porém, impede que Dilma - com a intenção de garantir que nenhum naco de sua clientela cativa fique tentada a migrar para a oposição - apele ao discurso do medo, tentando fazer com que os eleitores pobres acreditem que os demais candidatos irão privá-los de seus benefícios.

Assim, Dilma reforça a visão autoritária segundo a qual os brasileiros que saíram da miséria não o fizeram por suas próprias forças, e sim graças à imensa bondade do PT, e somente os petistas são capazes de cuidar deles.

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