O Brasil continua mal na foto

O Brasil deve sair da recessão e crescer no próximo ano cerca de 0,5%, mas ainda com o pior desempenho entre as grandes economias e um dos piores na América Latina, segundo as novas estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI)

O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2016 | 03h19

O Brasil deve sair da recessão e crescer no próximo ano cerca de 0,5%, mas ainda com o pior desempenho entre as grandes economias e um dos piores na América Latina, segundo as novas estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI). A novidade mais animadora, no caso da economia brasileira, é o repique, pelo menos aparente, da confiança, depois de ter batido no fundo. A projeção de retorno ao crescimento é baseada, em grande parte, nesse fator. São citados como pressupostos a redução da incerteza política, a diminuição da insegurança quanto às políticas econômicas e o esgotamento dos efeitos dos choques dos últimos anos. Há uma referência discreta, mas claramente positiva, à mudança de governo. A nova edição do Panorama Econômico Mundial (World Economic Outlook), divulgada na terça-feira passada, permite avaliar com números atualizados a posição do Brasil.

Na semana passada, a junta executiva do FMI havia enfatizado, em comentário sobre o Brasil, a importância das novas expectativas de empresários e investidores. Essa boa disposição, segundo o Fundo, poderá sumir se o programa de correção dos grandes desajustes decepcionar o mercado. Não se trata de uma advertência dirigida somente ao Executivo. Se a agenda de novas políticas ficar encalhada no Congresso, a disposição de apostar na recuperação do País e no retorno ao crescimento provavelmente se esvairá.

A responsabilidade é dos Três Poderes. Mas a liderança na formulação e na defesa da agenda cabe naturalmente ao presidente da República e à sua equipe. Não basta conhecer o caminho certo: é preciso mobilizar apoio político a medidas nem sempre populares, mas fundamentais para o bem-estar de milhões a médio e a longo prazos. O governo precisará tanto de coragem como de habilidade para defender a austeridade fiscal, medidas para tornar o Orçamento mais administrável e reformas como as da Previdência e das normas trabalhistas.

Pode-se discutir se os economistas do FMI são cautelosos demais quando projetam para o Brasil crescimento de apenas 0,5% em 2017. Projeções do governo e do mercado indicam a expectativa de um desempenho melhor no próximo ano, embora abaixo de medíocre. Mas o ponto importante é outro. Mesmo sem avançar em detalhes da política brasileira, os técnicos do Fundo encaixam o País numa condição diferenciada. Já faziam isso, de alguma forma, quando mencionavam a corrupção, a Operação Lava Jato e as incertezas políticas como componentes importantes do cenário econômico.

Além disso, os técnicos do FMI estiveram entre os primeiros a chamar a atenção para a queda do produto potencial, consequência inevitável do baixo investimento e da perda de eficiência do País. Não há expectativa de grande melhora em relação a esse ponto. Em 2021, segundo as novas estimativas, a economia brasileira ainda deverá crescer 2%, enquanto os países emergentes e em desenvolvimento da Ásia avançarão 6,4% e os latino-americanos, 2,7%. Mas a média latino-americana ainda será prejudicada pelo próprio Brasil e, é claro, pela Venezuela. Projeções desse tipo são necessariamente conservadoras, exceto quando incluem o pressuposto de mudanças políticas e econômicas importantes.

No caso do Brasil, evita-se o risco de imaginar grandes ganhos de produtividade, só possíveis com mudanças mais amplas que as apenas esboçadas. Sem grandes alterações de política o País continuará em desvantagem na corrida do crescimento e da modernização.

Pelas novas projeções, a economia global deve crescer 3,1% neste ano e 3,4% no próximo. São os mesmos números do cenário atualizado em julho, mas inferiores aos publicados no relatório de abril. Para os países avançados a expectativa é de expansão de 1,6% em 2016 e 1,8% em 2017. Os emergentes e em desenvolvimento devem continuar na frente, com taxas de 4,2% e 4,6%. O Brasil, mesmo com alguma melhora, continua como a mais emperrada das grandes economias. Levar o País a essa posição especial foi uma das façanhas do governo de Dilma Rousseff.

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