O Brasil e a crise argentina

Desta vez, as turbulências no comércio entre os dois países não decorre, como aconteceu com frequência nos governos populistas de Néstor e Cristina Kirchner, de medidas administrativas de caráter nacionalista

O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2018 | 03h00

As medidas anunciadas pelo governo do presidente Mauricio Macri para conter a crise econômica na Argentina já afetam de maneira notável as exportações brasileiras para aquele país, que devem fechar 2018 com redução em relação às vendas do ano passado. A indústria automobilística brasileira está entre os segmentos mais atingidos pelos problemas no país vizinho. A queda das exportações de veículos, observada desde maio, deve se estender pelos próximos meses, o que pode afetar o desempenho desse segmento industrial que concentrou suas vendas externas em países sul-americanos e, em particular, na Argentina. Os números que dão a dimensão do impacto da crise argentina sobre as vendas externas de veículos brasileiros, apresentados em reportagem do Estado, são expressivos. O total das exportações de veículos entre maio e agosto deste ano é 22,4% menor do que o dos mesmos quatro meses do ano passado. As vendas caíram de US$ 2,4 bilhões para US$ 1,8 bilhão.

O domínio do mercado sul-americano, especialmente o do Mercosul, tem assegurado às montadoras de veículos instaladas no Brasil uma posição relativamente cômoda. No ano passado, por exemplo, o setor exportou 766 mil veículos completos, o que representa 29% de sua produção, que alcançou 2,7 milhões de unidades. O bom desempenho da produção nos oito primeiros meses do ano, de 1,97 milhão de unidades, leva a entidade representativa das montadoras, a Anfavea, a projetar uma produção superior a 3 milhões de veículos em 2018. Mas as exportações no ano, se não caírem em relação às de 2017, deverão, na melhor das hipóteses ter crescimento zero. Nesse caso, a fatia das exportações na produção total cairia para 25%.

Esta é, porém, uma estimativa otimista. Em valor, as exportações de veículos vêm diminuindo há quatro meses, de acordo com dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). Em maio, elas foram 10% menores do que as de um ano antes; em junho, a queda foi de 19%; em julho, de 40%; e em agosto, de 21%. Os dados da Anfavea, baseados no número de unidades exportadas, diferem dos do Mdic, mas confirmam a tendência. Em unidades exportadas, as vendas externas caíram 17,2% em maio, 4,4% em junho, 21,7% em julho e 16,6% em agosto.

Na crise da economia brasileira que marcou os últimos anos do governo da presidente cassada Dilma Rousseff, quando as vendas internas despencavam, as exportações para a Argentina cresciam continuamente. À necessidade dos fabricantes brasileiros de encontrar mercado para sua produção, até oferecendo descontos, somavam-se condições de financiamento mais favoráveis. Os consumidores argentinos chegaram a absorver até 70% dos veículos exportados pelo Brasil, o que gerou um desequilíbrio no comércio de produtos automobilísticos entre os dois países.

O crédito encolheu e ficou mais caro na Argentina. O número de veículos financiados caiu 12,2% em junho e 17,2% em julho, na comparação com os mesmos meses de 2017. As vendas, de sua parte, caíram 18,2% em junho, 22,8% em julho e 25% em agosto. O aumento dos juros básicos, de 45% para 60%, bem como a forte desvalorização da moeda local, o peso, em relação ao dólar, devem comprimir ainda mais a demanda por veículos brasileiros. O conjunto desses fatores negativos para as exportações brasileiras deve levar a Anfavea a rever suas projeções para as vendas externas de veículos neste ano. Já parece certo que haverá redução em relação a 2017. “Não vamos conseguir repetir o bom número do ano passado”, admite o presidente da Anfavea, Antonio Megale.

Desta vez, as turbulências no comércio entre os dois países não decorre, como aconteceu com frequência nos governos populistas de Néstor e Cristina Kirchner, de medidas administrativas de caráter nacionalista, como retenção de autorizações de entrada de produtos brasileiros na Argentina. Elas são consequência da crise econômica argentina cujos efeitos sobre o Brasil e outros países só agora começam a ficar evidentes.

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