O Brasil é o alvo da Alba

Mal regressou da 5ª Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, o presidente Lula gravou uma entrevista para o seu programa Café com o Presidente na qual externou um otimismo sem reservas sobre o evento de que participou com evidente disposição construtiva. Lula voltou do Caribe convencido de que "demarcamos uma nova história" nas relações entre a América Latina e os Estados Unidos. A seu ver, o presidente Obama "tem a compreensão" das medidas certas que deve tomar no tempo certo e os líderes regionais "têm a convicção" de que ele é uma novidade importante para transformar esse relacionamento numa parceria mais efetiva.O tempo dirá o quanto há de realismo e o quanto de wishful thinking nos prognósticos de Lula sobre a compreensão que atribui a Obama. Já a convicção que ele diz ter visto, indistintamente, entre os seus colegas das redondezas deve ser recebida no mínimo com cautela. É bem verdade que o venezuelano Hugo Chávez enfiou no saco a viola com que pretendia azucrinar os ouvidos do novo presidente americano com a sua melopeia anti-imperialista. Mas o fez à falta de melhor, por mera "necessidade tática": Obama, ao anunciar "um novo começo" com Cuba, e a aparente prontidão do regime de Havana para o diálogo com os Estados Unidos tiraram, por ora, o fôlego do caudilho.Antes disso, porém, na reunião da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), Chávez levou a um ponto caricatural o seu antiamericanismo. "Onde haverá mais democracia, nos Estados Unidos ou em Cuba?", perguntou retoricamente em dado momento. "Eu não tenho dúvidas", completou. "Em Cuba há mais democracia."Além disso, como observa o venezuelano Moisés Naím, editor da revista Foreign Policy, a questão cubana ofuscou em Port of Spain "as profundas divergências que separam os latino-americanos". Ao que se pode acrescentar que o Brasil foi arrastado ao centro delas. A rigor, nem todos os países estendem as efusões de boa vontade que marcaram a Cúpula ao "gigante que não fala a nossa língua", como é possível ouvir, significativamente, nas sedes de seus governos. Isso emergiu com clareza meridiana às vésperas do evento, quando se reuniram na Venezuela os líderes dos seis membros da Alba, o bloco chavista da região, mais o seu convidado paraguaio Fernando Lugo.Fiéis a seu mentor bolivariano, eles assinaram um documento que começa rebaixando o G-20 de foro representativo da comunidade internacional - como o considera Lula depois de ter trabalhado para que substituísse nesse papel o G-8 - a um "grupo exclusivo". O presidente brasileiro não foi obviamente citado no texto, mas a posição dos bolivarianos representou um nítido voto de desconfiança no seu empenho em ampliar o acesso dos países em desenvolvimento aos debates sobre a crise econômica. Em seguida, por iniciativa do boliviano Evo Morales, o manifesto da Alba investe contra o programa do etanol, menina dos olhos das políticas de Lula, por seus presumíveis "efeitos negativos sobre os preços dos alimentos e recursos naturais". Morales também queria que a menção ao etanol na declaração final da Cúpula viesse acompanhada de uma nota de rodapé sobre a sua alegada ameaça à segurança alimentar. E, para terminar, o documento da Alba emitiu um claro sinal de que se inclina a apoiar a pretensão paraguaia de renegociar com o Brasil o Tratado de Itaipu - o que o presidente Lugo rapidamente anunciou como manifestação de solidariedade. Na entrevista de despedida da Cúpula de Trinidad, Lula deu-lhes o troco. "O Brasil é grande", argumentou, depois de se referir a Lugo e Morales pelo nome. "Então as pessoas estão sempre achando que o Brasil é culpado por alguma coisa que acontece com eles." A verdade é que o Brasil já há algum tempo vem tomando o lugar dos Estados Unidos como o inimigo a ser combatido pela "revolução bolivariana". As concessões de Lula, mesmo em detrimento do interesse nacional, como nos casos dos contenciosos comerciais com a Argentina e a Bolívia, não bastaram para aplacar os governantes vizinhos que encontraram um novo "inimigo externo" para respaldar o seu populismo e disfarçar os seus fracassos. A última coisa que lhes ocorrerá é seguir o conselho do presidente brasileiro, separando "o que é ingerência externa e o que é subserviência e erro de nossa própria classe dirigente".

, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 00h00

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