O Brasil e o próximo governo

O próximo governo enfrentará juros mais altos no mercado internacional já no primeiro ano - e o aperto deverá aumentar em 2016, segundo as projeções da maioria dos dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). Para os americanos, essa mudança representará, principalmente, uma normalização da política monetária, depois de anos de juros básicos próximos de zero e de muito dinheiro emitido para facilitar a recuperação da economia. O ritmo da mudança nas condições de financiamento vai depender da criação de empregos e da evolução dos preços. Com a melhora dos negócios e o aumento das contratações, a inflação também deverá subir e convergir para a meta de 2%. Como contrapartida, a política será apertada e o crédito ficará mais caro e seletivo. O dinheiro será menos acessível, portanto, aos clientes com ficha menos favorável, sejam indivíduos, empresas ou países. Esta é mais uma excelente razão - e mais premente que nos últimos anos - para o governo brasileiro cuidar de sua credibilidade financeira e da blindagem do País contra choques externos.

O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2014 | 02h12

Os mercados financeiros receberam o recado sobre as perspectivas de 2o15 e de 2016 na quarta-feira passada. Naquele dia, o Comitê Federal de Mercado Aberto, formado por diretores do Fed e responsável pela política monetária da maior economia do mundo, anunciou mais uma redução dos estímulos ao crescimento, mas com manutenção dos juros básicos na faixa de zero a 0,25% ao ano. Em outubro, o Fed reduzirá de US$ 25 bilhões para US$ 15 bilhões a compra de títulos do Tesouro e de papéis lastreados em hipotecas. Para realizar essa compra, a instituição emite dinheiro e com isso irriga os mercados. O corte mensal de US$ 10 bilhões foi iniciado em janeiro e poderá encerrar-se antes do fim do ano.

O Fed tem reduzido os estímulos porque a economia americana continua criando empregos e a produção segue em alta, depois de um tombo temporário no primeiro trimestre, explicável em grande parte pelo inverno excepcionalmente forte. Nos últimos três meses houve aumento mensal, em média, de 200 mil postos de trabalho. Esses postos foram abertos basicamente pelo setor privado, porque os governos continuaram ajustando suas finanças.

Apesar desses dados positivos, os membros do comitê avaliaram a melhora como insuficiente, porque muitos trabalhadores continuam desempregados ou empregados em tempo parcial, comentou a presidente do Fed, a economista Janet Yellen. Embora a taxa de desemprego, de 6,1%, seja cerca de 2 pontos inferior à de dois anos atrás, a maior parte do comitê considera ainda necessária uma política propícia ao crescimento econômico. Daí a decisão de manter "por um tempo considerável" uma política "altamente acomodatícia". Essa orientação inclui a conservação dos juros na faixa atual.

Ninguém define a extensão do "tempo considerável", mas, segundo a maioria dos dirigentes do Fed, será conveniente um primeiro aumento de juros no próximo ano. Catorze participantes da reunião apontaram 2015, enquanto 1 indicou 2014 e 2 mencionaram 2016. Em junho, esses palpites foram 12, 1 e 3. Os fatos poderão evoluir de forma diferente, até porque a elevação dos juros dependerá também da inflação. A taxa de 2%, segundo a projeção central, provavelmente só será alcançada em 2016.

O governo brasileiro tem, portanto, algum tempo para montar uma política mais apropriada às novas condições financeiras. Mas o tempo é curto, porque mudanças nas contas públicas são politicamente complicadas. Mas ninguém poderá alegar surpresa, mesmo porque a redução dos estímulos monetários nos Estados Unidos foi anunciada no primeiro semestre do ano passado. Além do mais, o mercado já está mudando e isso é normal.

Sobrou dinheiro no mercado internacional durante anos. O governo brasileiro foi incapaz de promover nesse período o fortalecimento e o crescimento da economia. A expansão média em quatro anos dificilmente chegará a 2%. Agora terá de realizar ajustes num cenário bem menos favorável.

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