O Brasil muito mal na economia regional

A Comissão Econômica da América Latina (Cepal), da ONU, divulgou no mês passado o seu Balanço Preliminar das Economias da América Latina e Caribe - 2014 (em espanhol e resumo em português). Nos últimos anos esse balanço mostrou contínua deterioração da economia brasileira nesse contexto regional. O de 2014 novamente deixa ainda mais clara essa percepção.

ROBERTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2015 | 02h03

É muito importante que esse documento receba maior divulgação, pois por muito tempo aqui se difundiu no público em geral uma imagem muito enganosa da economia brasileira, particularmente na propaganda eleitoral da presidente Dilma Rousseff em 2014. Ela e seus marqueteiros insistiram então numa visão da economia que exagerava poucos aspectos positivos e pintava muitos negativos como favoráveis.

Quanto ao baixo crescimento do PIB, o governo Dilma escolheu como bode expiatório a crise que, com suas sequelas, assolou a economia mundial a partir de 2008. Mas essa economia já está em recuperação há tempos. E o que os relatórios da Cepal vêm mostrando é que muitos países da América Latina (AL) e do Caribe têm desempenho bem melhor que o do Brasil, embora enfrentando as mesmas circunstâncias internacionais. O que há mesmo é uma crise econômica "made in Brazil" e resultante de uma política econômica equivocada.

O balanço de 2014 da Cepal mostra que a economia mundial cresceu à taxa média de 1,8% entre 2007 e 2010, quando a crise econômica teve maior força. Mas seguiram-se taxas médias de 2,8% (2011), 2,3% (2012), 2,4% (2013) e previsões de 2,6% (2014) e 3,1% (2015), evidenciando sua recuperação. Neste último biênio, prevê-se que o Brasil cresça 0,2% e 1%, respectivamente. Ora, com taxas tão abaixo da média internacional, no curso que tomou de política econômica o governo brasileiro foi reprovado.

Passando a outros contrastes, essa taxa de crescimento do nosso PIB em 2014, de 0,2%, está abaixo das previstas para 29 entre 34 países das duas regiões! Com tal desempenho e sua população crescendo mais que o PIB, nosso país deverá ser um dos cinco a mostrar redução do PIB por habitante. Ou seja, na média, em lugar de aumentar a renda, seu povo empobreceu no ano passado!

Quanto à inflação medida por preços ao consumidor, o Brasil também destoa, pois entre 33 países das duas regiões só 5 têm previsões de taxas anuais em 2014 maiores que a do Brasil!

Nas contas públicas, um gráfico do relatório mostra, como proporção do PIB, números da dívida pública bruta e do resultado anual para 19 países da AL, conforme previsões para 2014. O Brasil tem a maior dívida e seu déficit só é menor que o de três países!

E é campeão de taxa de juros do crédito ao consumidor! Também se prevê que aqui a expansão do crédito interno tenha ocorrido à taxa de 8,7% em 2014, taxa essa superada em 14 países da AL.

Algo de que o governo federal sempre se vangloriou é a baixa taxa de desemprego medida nas seis regiões metropolitanas mais importantes do País. De fato, as previsões dessa taxa em 2014 colocam o Brasil no grupo de cinco países com taxas inferiores a 5% da população economicamente ativa, de pessoas ocupadas ou à procura de trabalho. Mas quando se mira a taxa de emprego, a da população empregada como proporção daquela em idade de trabalho, num levantamento relativo a 2013, alcançando 22 países, o Brasil aparece como um dos quatro países com menor taxa!

Como se explica uma baixa taxa de desemprego ao lado de uma também menor taxa de emprego? Acontece que a taxa com que a população participa da força de trabalho, seja trabalhando ou procurando trabalho, está também entre as mais baixas, o que não é uma notícia boa. Assim, a baixa taxa de desemprego no Brasil esconde um problema por resolver, esse da baixa participação na força de trabalho. Inclusive de muitos jovens que nem trabalham nem estudam, a chamada geração nem-nem. Coisas boas muitos não fazem ou farão.

O fraco crescimento do PIB sintetiza os males da economia brasileira. O que fazer? Quem acompanha meus textos sabe que sempre defendi medidas para estabilizar a economia diante de seus desequilíbrios, como o mau estado das contas governamentais e uma inflação alta.

Mas estabilizar a economia não basta para fazê-la crescer. Isso se dá com investimentos para ampliar sua capacidade produtiva e gerar renda para trabalhadores e fornecedores envolvidos nessa ampliação, o que multiplica os bons efeitos do que foi investido. Os investimentos também incorporam novas tecnologias, que ampliam a produtividade dos fatores produtivos, a qual, no caso do trabalho, também pode crescer mediante educação e treinamento profissional.

Quanto a investimentos, seria fundamental que o governo fizesse a sua parte, mas aí também se sai mal na foto da Cepal. Nas previsões para 2014 sobre investimentos de governos centrais - o federal, no caso brasileiro -, de 29 governos nas duas regiões o nosso está entre os três com menores taxas de investimento público como proporção do PIB!

Com sua gastança noutras áreas, incluídos juros da dívida pública num valor próximo do triplo do que gasta com investimentos, e passando por um indispensável ajuste de suas contas, nosso governo federal revela enorme carência de recursos para investir, o que vale também para os estaduais e municipais. Nessas condições a saída, na qual há tempos insisto, é desenvolver um audacioso programa de concessões de serviços públicos e parcerias público-privadas. Também colocaria na lista um programa de desestatizações, que abordarei noutro artigo, mas adianto que incluirá algumas atividades hoje exercidas pela Petrobrás.

*Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard), consultor econômico e de Ensino Superior 

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