O Brasil no pior dos mundos

O Brasil chega ao meio do ano com a economia ainda no atoleiro e fortes sinais de mais um trimestre negativo. O desemprego alcança novos segmentos da economia, a atividade econômica continua a desacelerar e a inflação ganha velocidade. A crise, depois de ampla devastação na indústria, finalmente derrubou o emprego em serviços. Em maio, foram eliminados no setor 32.602 postos com carteira assinada, informou na sexta-feira passada o Ministério do Trabalho. Aquela manhã já havia começado com uma notícia negativa, embora nada surpreendente. De março para abril caiu mais 0,84% o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), conhecido no mercado como a prévia do Produto Interno Bruto (PIB). O indicador ficou 3,29% abaixo do contabilizado um ano antes, na série livre de efeitos sazonais, e diminuiu 1,38% em 12 meses.

O Estado de S. Paulo

22 Junho 2015 | 03h00

No primeiro trimestre, o PIB foi 0,2% menor que nos três meses finais de 2014 e 1,5% mais magro que o de igual período do ano anterior. De abril a junho o quadro pode ter piorado, segundo as indicações parciais publicadas por fontes oficiais e por entidades privadas. Como em anos anteriores, a boa safra de grãos e oleaginosas continua impedindo um desastre maior nas contas externas e na atividade interna. Mas nem o dinamismo do agronegócio, reconhecido internacionalmente, é suficiente para compensar a anemia dos demais setores da economia brasileira.

A indústria foi o primeiro setor a entrar em crise e seu desempenho piorou durante os últimos três anos. Em maio foram fechados na indústria de transformação 60.989 postos de trabalho com carteira assinada – mais de metade dos 115.599 empregos liquidados no mês. Na construção foram eliminadas 29.795 vagas, mais uma confirmação do fiasco dos programas oficiais de habitação e de investimento em infraestrutura.

Mas a grande novidade revelada pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), atualizado mensalmente pelo Ministério do Trabalho, foi o impacto da crise nos serviços (-32.602) e no comércio (-19.361). Em maio, os efeitos da crise ficaram muito claros também nos dois segmentos. É mais fácil de perceber a mudança quando se examinam os números acumulados em 12 meses. Nesse período sumiram 339.503 vagas formais na indústria de transformação e 312.417 na construção civil, mas o saldo foi positivo no comércio (71.140) e ainda mais no setor de serviços (181.377).

Os empregos na indústria são normalmente melhores que os de serviços. Até há pouco tempo a absorção de mão de obra vinha ocorrendo, portanto, principalmente em áreas de baixa produtividade e de menor remuneração – detalhe ignorado, quase sempre, nas falas da presidente Dilma Rousseff sobre as condições do emprego no Brasil. Agora nem esses postos de menor qualidade estão sendo abertos com a facilidade observada nos últimos anos.

Os esforços do governo para conter seus gastos apenas começaram e explicam só em parte a rápida piora das condições econômicas. O aperto monetário, com os juros básicos já elevados a 13,75% ao ano, também pode ser parte da explicação. Mas os fatores mais importantes da crise são de outra ordem.

A perda de produtividade agravou-se nos últimos anos, limitando severamente o potencial de crescimento. Essa perda está associada, obviamente, ao baixo nível de investimento em capital físico e ao preparo deficiente da mão de obra.

Mas o colapso recente nos serviços e no comércio varejista é atribuível basicamente a outros fatores, como o próprio desemprego e a deterioração da renda real das famílias. Essa perda decorre em boa parte da inflação muito acelerada.

O IBGE divulgou também o IPCA-15 de junho, uma prévia do Índice Geral de Preços ao Consumidor Amplo, a grande referência para a política oficial. Nas quatro semanas até o meio do mês os preços ao consumidor subiram 0,99%, 0,39 ponto mais que na medida anterior. Foi a maior alta observada em junho desde 1996. O aumento em 12 meses bateu em 8,8%. Enquanto o mundo rico sai da crise com inflação muito baixa, no Brasil a retração é acompanhada de preços em disparada e contas públicas em desordem. O nome disso é estagflação. Contemporizar será desastroso.

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