O Brasil, o medo e as Marias Antonietas

Tal qual a rainha, os parlamentares se ausentam do presente num autismo voluntário

*ROMEU CHAP CHAP, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2018 | 03h00

Com dimensões continentais, o Brasil só poderia ser plural. Raras são as ocasiões em que esta terra tão miscigenada ganha identidade única. Mas o que dizer quando a mais marcante delas – talvez a mais absoluta – perde força? A atitude de muitos brasileiros na última Copa do Mundo passou vários recados. É claro que, se a campanha da seleção tivesse sido vitoriosa, talvez nem fosse necessário analisar os fatos. Porém, desde o início, o desinteresse de alguns, a apatia de outros e o manifesto “e daí, que eu ganho com isso?” são sintomas clássicos de um povo cansado de cada vez menos pão e cada vez mais circo.

Por um lado, ótimo. Parece que os cidadãos decidiram dirigir sua atenção ao que realmente interessa ao País. Por outro, um sintoma (grave) de desesperança e falta de motivação. Um tipo de inércia coletiva que não combina com momentos como o que vivemos hoje: economia pedindo oxigênio, corrupção exigindo basta e eleições. Momentos que exigem fé e ação.

A típica síndrome de “o que não tem remédio remediado está” mostra uma resignação preocupante. E surge um novo denominador comum entre os brasileiros: todos estão com medo. Medo de perder o emprego, de não conseguir emprego. Medo de perder a moradia, de jamais conquistar onde morar. Medo de agir. Medo de fracassar. Medo de opinar.

A greve dos caminhoneiros, que atropelou qualquer sonho de consistente retomada econômica em 2018, amedrontou todos ainda mais. Vimo-nos reféns, à mercê das vontades alheias. Fazer o quê?

As chicanas jurídicas do “prende-solta-prende” de poderosos condenados só fizeram aumentar nosso cativeiro. O que importam a lei, o julgamento, a sentença, se tudo pode ser relativizado conforme a cabeça de plantão? Fazer o quê?

E vêm as notícias. Umas mostram o encolhimento do setor da construção civil, altamente gerador de postos de trabalho. Outras, que foram comercializados mais de R$ 472 bilhões em imóveis no período de 12 meses encerrado em maio. E então, está meio ruim ou ruim e meio?

Pode-se dizer que tudo é questão de escolher entre pessimismo, otimismo e realismo. Contudo, uma população amedrontada (empresários, inclusive) não ousa optar. Prefere ficar fechada em seu círculo de incertezas e desconfianças. Um ciclo autofágico que está asfixiando a economia e que, se não reagirmos logo, tornará muito mais difícil subir à tona para respirar.

Recente pesquisa contratada por entidades representativas do comércio e dos serviços põe o medo em destaque na nuvem de palavras-chave. Revela que jovens e adultos de diferentes classes sociais se sentem machucados, desrespeitados, cheios de dúvidas e pouco crédulos em cenários mais favoráveis no curto e no médio prazos.

Com raiva e perplexo com a corrupção e a desfaçatez dos homens públicos, o brasileiro se sente abandonado à própria sorte e enxerga sua insignificância perante a classe política, na qual o vazio de lideranças impede a identificação de caminhos.

Caberia à classe política a missão de reverter esse estado de ânimo. Mas essa não parece estar entre as prioridades, o que reforça a percepção de que nossa crise econômica tem origem na política. Melhor dizendo, em certos políticos.

Diferente fosse, não teríamos a insatisfação de presenciar a concessão de aumentos salariais a funcionários públicos, como se viu no Estado de São Paulo, ou a articulação de deputados federais e senadores para elevar o teto constitucional dos atuais R$ 33,7 mil para R$ 38 mil. Onde foi parar a pauta do ajuste fiscal? Por que só nós temos de apertar o cinto?

Grosso modo, pode-se dizer que os parlamentares dão uma banana aos cidadãos que não têm auxílio-moradia, auxílio-paletó, auxílio qualquer coisa. Isso é aterrorizante, uma vez que em janeiro deste ano o salário de um parlamentar era 35 vezes o salário mínimo, fora benefícios.

É uma banana bem dada àqueles que, quando têm chance, ganham dinheiro com o suor do próprio rosto, trabalhando sem regalias. Trabalhando sob a égide do medo do dia seguinte, quando o emprego e os meios de ganhar o pão podem simplesmente evaporar.

Nossos políticos se comportam como Marias Antonietas. O Brasil se arrasta. O povo rema contra a maré. E tal qual a rainha consorte de França e Navarra, no que se refere às frivolidades e à opção pela fuga, os parlamentares se ausentam do presente num autismo voluntário.

Bem sabemos que medo não é saída. Ele paralisa. Imobilizados, nada fazemos. Nem mesmo votar. E nunca foi tão importante votar.

Que se apresente, pois, um candidato. Alguém que nos convide a acreditar. Que nos afaste o medo. Que tenha postura de estadista. Que desenhe horizontes. Alguém com propostas calcadas no bom senso. Sem convidar para o tudo ou nada, como se equilíbrio fosse miragem. Que conheça o Brasil e os brasileiros. Suas necessidades e vontades de ter projeto, planejamento, previsibilidade. Alguém que pense além de si e dos seus. Que defenda a ordem e o progresso. Que não mancomune ou deixe mancomunar. Que coloque o poder público a serviço do público. Que abra espaço para o livre mercado prosperar, pois é ele quem deve investir para que o crescimento econômico ocorra. Que cuide do essencial para os cidadãos, como saúde e educação. Que fomente a infraestrutura com eficiência e transparência. Que apoie os trabalhadores e os empreendedores, em especial os de pequeno e médio portes, porta de entrada para milhões de empregos. Que garanta segurança jurídica e assegure a liberdade que só a autonomia cultural e financeira pode propiciar. Alguém que faça o bolo crescer para que fatias generosas sejam igualmente compartilhadas.

A questão é procurar em meio aos diversos candidatos qual se aproxima desse perfil. Dentre tantos, um há de haver.

Mas, se nos deixarmos ficar no silêncio do medo (no silêncio dos bons), nada vai mudar. E dessa culpa não poderemos nos furtar.

*EX-PRESIDENTE DO SECOVI-SP, COORDENA O NÚCLEO DE ALTOS TEMAS DA INSTITUIÇÃO E ATUA HÁ 60 ANOS NO SETOR IMOBILIÁRIO

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