O Brasil tem jeito

O populismo da era lulopetista é coisa do passado, o País volta a ser escutado, respeitado

Ricardo Vélez Rodríguez, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2016 | 05h00

O ano de 2016 terminou em meio aos solavancos que o terrorismo infligiu à Europa. A assombração do “lobo solitário” virou força assassina nas ruas e avenidas das capitais europeias, no pistoleiro suicida de Ancara que matou a sangue-frio o embaixador russo, no motorista do caminhão roubado que avançou sobre a multidão indefesa que fazia compras de Natal em Berlim, como já tinha acontecido no meio do ano findo em Nice, etc.

No mundo globalizado, o terrorismo virou parte do prato natalino e de fim de ano. Os fatos mencionados nos afetaram. Como nos afetou, também, o drama dos civis presos e mortos no meio do fogo suicida dos terroristas, dos oposicionistas ao governo de Assad, dos russos que colaboram na “pacificação” à moda da limpeza étnica praticada por eles na Chechênia e dos comandos iranianos associados ao presidente sírio. Civis indefesos postaram as suas últimas palavras nas redes sociais, que as divulgaram aos quatro cantos do planeta, desde as casas e os apartamentos bombardeados indiscriminadamente em Alepo. É o terror que chega à nossa sala de jantar.

Nesse triste contexto de destruição e morte, o que pensar do Brasil no início do próximo ano? É difícil ser otimista no contexto macabro que acabo de descrever e que é reforçado pela nossa violência silenciosa do dia a dia, que deixa nos cemitérios 60 mil assassinados ao longo do ano, acompanhados pelos quase 50 mil brasileiros que morreram em acidentes de trânsito. Saldo negativo que deixa a mensagem soturna de que a vida humana vale pouco.

Remando contra a maré dos fatos negativos, tentarei discorrer sobre as coisas positivas com que podemos contar em 2017. Três pontos vêm à minha memória: 1) o sucesso do agronegócio; 2) o regular funcionamento dos Poderes públicos, as reformas em curso e as eleições pacíficas de outubro; 3) a retomada do desenvolvimento e das boas relações com os outros países. Comentarei brevemente cada um desses pontos positivos.

1) O sucesso do agronegócio – Esse setor da economia preservou a sua vitalidade, em que pese a crise que se instalou na indústria, no comércio e nos serviços. O campo ajudará o Brasil, também em 2017, a pagar as suas contas, com a safra recorde projetada de 213,1 milhões de toneladas (14,2% maior que a anterior). De janeiro a outubro de 2016 o agronegócio exportou produtos pelo valor de US$ 73,1 bilhões e o superávit obtido, de US$ 62,1 bilhões, cobriu o déficit dos outros setores, tendo deixado um saldo positivo de US$ 38,5 bilhões.

Os subsídios oficiais para o agronegócio, em contrapartida, foram minguados, chegando a apenas 5% dos recursos disponíveis – enquanto outros países cuidam com mais empenho da produção agropecuária: na União Europeia e na China, os subsídios pagos ao setor vão de 20% a 25% e nos Estados Unidos chegam a 12%. Confirma-se a observação crítica do mestre Eugênio Gudin, feita em meados do século passado, no sentido de que o Brasil não olha com carinho para o agronegócio, concentrando os incentivos na produção industrial.

2) O regular funcionamento dos Poderes públicos, as reformas em curso e as eleições pacíficas de outubro. O ciclo pós-petista tem-se caracterizado pelo regular funcionamento dos Poderes públicos, apesar dos confrontos entre eles, superados os surtos de estrelismo personalista com a negociação à sombra da lei. Não seria justo afirmar que um dos Poderes se tenha sobreposto aos outros. A Operação Lava Jato, em que pese o caráter escatológico que alguns membros do Ministério Público ou parcelas da opinião têm tentado impingir-lhe, progride, com respeito às normas jurídicas e processuais. O normal funcionamento da máquina pública e dos Poderes possibilitou a realização tranquila das eleições municipais de outubro, com um claro recado aos políticos, “chega de populismo”, num contexto claramente definido de opções conservadoras e de maior transparência.

Apesar das dificuldades herdadas do ciclo lulopetista, o plano de reformas para impulsionar a economia vai sendo aprovado regularmente no Congresso. A baixa popularidade do presidente Michel Temer não ameaça o prosseguimento das reformas. Os entraves encontrados dissipar-se-ão à medida que as reformas que impulsionam a economia, como as do teto de gastos públicos e da Previdência Social se forem consolidando ao longo do ano próximo. A reforma do ensino médio foi aprovada, apesar da grita das viúvas do PT e seus coligados. E não adianta judicializar esta última, pois o grosso da opinião pública a defende.

3) A retomada do desenvolvimento e das boas relações com os outros países. O Ministério das Relações Exteriores, sob o acertado controle do chanceler José Serra, fez, de forma eficiente, as reformas necessárias para que a nossa política externa voltasse aos trilhos do bom senso que caracterizou tradicionalmente o Itamaraty. O populismo da era lulopetista é coisa do passado. O Brasil volta a ser escutado, e respeitado, no cenário internacional. Seria necessário, nesse processo de desideologização da nossa política externa, que decisões rápidas fossem tomadas no sentido de colocar o Brasil na dinâmica da Aliança do Pacífico, que abre definitivamente a nossa economia para a nova fronteira da bacia do Pacífico, de que já participam ativamente outros países latino-americanos, como Chile, Peru, México e Colômbia. O Mercosul deve ser revitalizado nesse contexto de abertura, deixadas para trás as feições populistas que o atrelaram ao atraso e ao protecionismo cego sob os governos de Lula e Dilma Rousseff.

Um feliz ano-novo para todos os amigos leitores. O Brasil tem jeito!

COORDENADOR DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA (UFJF), PROFESSOR EMÉRITO DA ECEME, É DOCENTE DA FACULDADE ARTHUR THOMAS, LONDRINA E-MAIL: RIVE2001@GMAIL.COM

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