O Brasil vulnerável

O Natal pode chegar com juros mais altos no mercado americano, ondas de choque nos principais centros financeiros e mais instabilidade para os emergentes, especialmente para aqueles, como o Brasil, considerados mais vulneráveis. Não é hora de relaxar as políticas monetárias, e também os dirigentes do Banco Central Europeu (BCE) deveriam pensar nisso, segundo relatório do Banco de Compensações Internacionais, também conhecido pela sigla BIS (Bank for International Settlements), com sede em Basileia, na Suíça. Depois de agitação em agosto e setembro, há uma situação de “calma desconfortável”, disse o chefe do Departamento Econômico do BIS, Claudio Borio, ao apresentar o novo relatório trimestral sobre as condições do sistema financeiro internacional.

O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2015 | 02h55

Políticas frouxas foram mantidas pelas autoridades monetárias do mundo rico por um período excessivamente longo, segundo economistas do BIS, abrindo espaço para novas bolhas especulativas e novos desajustes nos mercados.

O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) começou a rever sua estratégia há mais de um ano e em breve, talvez no meio de dezembro, anuncie a primeira alta de juros em muitos anos.

O BCE, ao contrário, acaba de anunciar um maior afrouxamento da política e a decisão de prolongar por seis meses seu plano de compra mensal de títulos no valor de até ¤ 60 bilhões. Os sinais de reativação econômica apareceram muito mais cedo nos Estados Unidos do que na Europa. Só neste ano a economia americana criou em média 218 mil empregos mensais – um forte sinal para a mudança da política monetária, embora a inflação continue muito baixa. Na Europa, a recuperação econômica tem sido mais lenta, a inflação continua muito próxima de zero e o setor empresarial cobra do BCE uma política ainda mais expansionista do que a adotada pela instituição.

Depois de assustar os mercados em agosto e setembro, a economia chinesa parece mais firme e o temor em relação aos emergentes diminuiu, mas a melhora do cenário pode ser passageira, segundo a análise divulgada pelo BIS.

A dívida em dólar praticamente duplicou desde 2009, no início da crise, e continua acima de US$ 3 trilhões.

O relatório chama a atenção para a dívida de bancos e de empresas dos emergentes, provavelmente subestimada por causa do uso de filiais estrangeiras para emissão de títulos de endividamento. Segundo o documento, “firmas chinesas, indianas, brasileiras, russas e sul-africanas usam subsidiárias no exterior para emitir bônus em dólar” e por isso a sua vulnerabilidade a uma alta dos juros e da moeda americana pode ser subestimada.

Economistas do FMI já haviam destacado o endividamento externo de empresas brasileiras. O novo relatório do BIS mostra, como exemplo do uso de filiais no exterior, a emissão de bônus da Petrobrás por intermédio de uma subsidiária nas Ilhas Cayman, a Petrobras International Finance Company. No fim do segundo trimestre, empresas brasileiras tinham dívidas de US$ 97 bilhões, sem contar os títulos emitidos por suas filiais. Quando se inclui o valor desses papéis, o total chega a US$ 200 bilhões. No caso da China, o estoque de bônus em moeda americana, no fim do segundo trimestre, é multiplicado por 13 e passa de US$ 18 bilhões para US$ 243 bilhões quando o endividamento das subsidiárias entra na soma.

Mas o Brasil é vulnerável a um aperto das condições internacionais também por outros fatores. A dívida externa de bancos e de companhias pode ser uma fonte de problemas sérios, mas a fragilidade das contas públicas e a inflação elevada adicionam uma extraordinária complicação ao cenário. Se mais uma agência rebaixar o crédito do Brasil ao grau especulativo, seguindo o caminho da Standard & Poor’s, as condições de financiamento poderão ficar muito mais difíceis para o governo e para as empresas. A crise política e os impasses do ajuste fiscal aumentam a vulnerabilidade. Quem olha para isso em Brasília?

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