O Buraco das Araras

Há poucos dias, em 13 de junho último, neste mesmo Espaço Aberto, o Estado publicou um excelente artigo escrito por A. P. Quartim de Moraes sobre a iminente falência da literatura brasileira (Hora de ouvir o mestre). Quartim é jornalista e editor, um dos poucos que se preocupam em publicar bons livros produzidos no País, promovendo, assim, o trabalho literário de qualidade. Nem é preciso mencionar as dificuldades que ele encontra como editor, é fácil imaginar, mas piores agruras talvez sofram os(as) autores(as), obrigados a percorrer a burocracia de editoras que não leem seus trabalhos e, no mais das vezes, respondem laconicamente por bilhete, elogiando e recusando os originais; outras vezes, devolvem-nos recomendando cursos que ensinam a escrever melhor... Ou seja, só autores já consagrados encontram guarida.O artigo de Quartim fez-me lembrar de um local chamado Buraco das Araras, em Bonito (MS). Trata-se de uma larga cratera natural aberta no solo, formando não apenas um "buraco", mas um precipício. No fundo, muito lá embaixo, há uma lagoa e uma pequena mata exuberante que a envolve. Nas fendas das paredes de pedra que circundam a cratera e se prolongam até as profundezas do abismo as araras construíram seus ninhos. Essas aves de penas vermelhas, verdes e azuis são, possivelmente, as mais magníficas do planeta. Suas cores fortes e fulgurantes, inimitáveis e inigualáveis, fascinam o observador. É um espetáculo assistir a dezenas de araras voando aos pares, passando de um lado para o outro do "buraco", aos gritos que ecoam por entre as árvores e nos dão a nítida impressão de estar no paraíso terrestre.O Buraco das Araras é made in Brazil. A sorte é que os apreciadores do meio ambiente e da riqueza natural de nossas terras, com ajuda da prefeitura local e da sociedade consciente, conseguiram garantir a preservação de Bonito, antes que fosse tarde demais. As araras, assim, puderam se manter naquele recanto de paz, sendo cultuadas, respeitadas, admiradas. Pensei no Buraco das Araras porque o local não podia servir para nenhum tipo de exploração econômica predatória, como tantas que existem por aí, e por essa razão durante muito tempo esteve abandonado, chegando a ser utilizado como lixão! Jogaram de tudo ali dentro, até automóvel velho. Finalmente, alguém teve a ideia de aproveitar a cratera, sua grande beleza e seu ambiente propício, levando as aves para lá. Pelo menos em Bonito, brasileiros tiveram a inteligência necessária para auferir algum lucro explorando as relíquias naturais sem destruí-las.Já em prol da literatura não parece haver nenhum movimento preservacionista, fato inexplicável num país que já produziu Machado de Assis, Guimarães Rosa, José de Alencar, Érico Veríssimo, Jorge Amado e muitos outros escritores de altíssimo gabarito. O autor de ficção é um espécime em extinção. Ninguém se importa em criar um "refúgio" para a literatura? Não é difícil encontrar meios de incentivar novos escritores a produzir com qualidade, mas ainda não se vislumbra essa iniciativa entre nós.Um país que não se expressa por meio de seus autores perde a identidade. Nem se alegue falta de valores - as araras estavam perdidas e talvez muitos achassem que não tinham serventia, até que lhes providenciaram esse ninho coletivo que muita gente paga para ver.Com exceção de Paulo Coelho, que começou fazendo esforços privados e pessoais para difundir seu trabalho e terminou consagrado internacionalmente, não encontramos novos autores de grande projeção. E Paulo Coelho, na verdade, mais do que literatura, produziu uma espécie de religião.Alega-se que literatura brasileira não vende. Mas como é possível vender, se o trabalho nem é publicado e, mesmo quando se publica, não é exibido em lojas nem divulgado nos meios de comunicação de massa? O resultado é que nossas livrarias estão repletas de best-sellers importados, por vezes muito mal traduzidos, promovendo livros que já foram exaustivamente divulgados no exterior e que são venda garantida justamente por essa razão.Além disso, as grandes redes de livrarias têm funcionários que nem sequer leram um livro na vida e não sabem orientar o consumidor. Já não existe nada parecido com os antigos livreiros, pessoas cultas que haviam lido a maioria dos exemplares que expunham à venda e podiam ajudar os clientes como ninguém.Bom negócio no Brasil de hoje é produzir e vender livros jurídicos, por uma razão: o direito não é igual nos vários países. A importação não rende. Nessa área, ou o autor é brasileiro ou não vai poder informar aquilo que os profissionais do ramo precisam saber. Em razão dessa circunstância, surgiram vários autores de importante repercussão doutrinária, que ninguém conheceria não fora o incentivo que tiveram para produzir.Diante das más perspectivas e da impossibilidade de o mercado se autorregular para favorecer a nossa literatura, é papel do Estado intervir para que não se perca a ficção produzida no Brasil e, com ela, parte importante de nossa cidadania. Se temos um Ministério de Cultura e secretarias estaduais e municipais da mesma área, é de perguntar o que andam fazendo em prol da literatura. Valores não nos faltam, mas os incentivos são mínimos. Assim como se promoveu a cinematografia brasileira, obrigando os cinemas a incluir na sua programação certa porcentagem de produção nacional, da mesma forma se devem incentivar editoras e livrarias a dar determinado espaço à literatura brasileira. Sem isso caminharemos de forma segura e inequívoca para o neocolonialismo cultural. Luiza Nagib Eluf, procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, tem vários livros publicados, dentre os quais A Paixão no Banco dos Réus e Matar ou Morrer - o Caso Euclides da Cunha

Luiza Nagib Eluf, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.