O cadáver de Bolívar

Nas primeiras horas da passagem do dia 15 para o dia 16 de julho, telespectadores venezuelanos insones foram surpreendidos com a cena em que a ossada de Simón Bolívar era retirada do Panteão Nacional para ser exumada. A televisão estatal transmitiu ao vivo o trabalho de médicos forenses, soldados e funcionários governamentais que retiraram dentes e fios de cabelo do que resta do Libertador. Mais tarde, o presidente Hugo Chávez revelou, em mensagem postada de seu Twitter: "Aquele esqueleto glorioso é certamente Bolívar, já que sentimos sua chama."

Bernardo Ricupero, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2010 | 00h00

O motivo aparente da exumação é verificar se o herói das Américas não morreu, em 1830, de tuberculose, como conta a "História oficial", mas envenenado por arsênico quando se encontrava em Santa Marta, na Colômbia. O suposto envenenamento de Bolívar pode, além do mais, servir a Chávez na sua batalha contra os atuais ocupantes do poder no país vizinho, herdeiros da oligarquia que teria traído o Libertador.

A curiosa exumação do cadáver de Bolívar talvez pudesse ser tomada como prova de que, como queria Comte, "os mortos governam os vivos". Na verdade, é mais um exemplo de como a História costuma ser usada para servir a fins políticos.

Não deixa, porém, de ser significativo que se mexa no cadáver do Libertador quando se inicia a comemoração dos 200 anos de independência das ex-colônias da Espanha e de Portugal na América. O bicentenário é, além do mais, evidentemente um momento privilegiado para se pensar a experiência das nações latino-americanas.

Já Bolívar percebera algumas das dificuldades que essas novas nações teriam de enfrentar. Argumentou sugestivamente, numa inspiração republicana, que o principal problema do pós-independência se relacionaria com o anterior despotismo espanhol, que teria impedido seus súditos de além-mar de aprenderem a se autogovernar. Pouco antes de morrer, o Libertador deixou-se tomar pelo desespero, aludindo que seu esforço teria sido inútil, já que "aquele que serve a uma revolução ara o mar".

Passados 200 anos da independência, o tema da revolução, ou melhor, da "refundação" ganha espaço na América Latina. Desde que o coronel Chávez, depois de tomar o poder, convocou uma Assembleia Constituinte para "refundar" a Venezuela, o mesmo caminho foi seguido pelo líder cocaleiro Evo Morales na Bolívia e pelo professor de economia Rafael Correa no Equador.

Mais especificamente, a combinação na Venezuela, na Bolívia e no Equador de uma intensa polarização social com a desmoralização do sistema político anterior conduziu à ruptura. Diante de tal quadro, não é seguro apostar que nesses países a democracia esteja segura, seja pela ação do governo ou da oposição.

Mesmo assim, a ruptura não deixou de assumir significados variados nos três países "refundadores". Para Chávez e seus seguidores, trata-se quase literalmente de refundar a nação de Bolívar, possivelmente recuperando a Gran Colômbia e mesmo seu projeto continental. Já para Morales e Correa, a questão é mais de fundar novamente Bolívia e Equador, fazendo com que, diferentemente da independência, as massas indígenas passem finalmente a ter lugar nas duas nações.

Mas a ruptura pode também assumir tons de direita, como ocorreu na Colômbia, no México e no Chile. No primeiro caso, o cansaço com o narcoterrorismo abriu caminho para que Álvaro Uribe pusesse fim à alternância secular no poder entre conservadores e liberais. Por sua vez, o desgaste lento do que um dia pareceu ser a "ditadura perfeita" do PRI preparou o terreno para que o marcadamente católico e nortista PAN chegasse ao governo mexicano. Por fim, mesmo a Concertación por la Democracia, que parecia ser um exemplo de "aprendizado democrático" ao juntar democratas-cristãos e socialistas, acabou se exaurindo depois de 20 anos de poder no Chile.

Por outro lado, nem todos os governos latino-americanos desejam realizar a ruptura. No caso da Argentina e do Peru, Cristina Kirchner e Alan García veem-se, ao contrário, como continuadores da tradição de Perón e de Haya de la Torre. E há também os governos de esquerda que agem a partir das instituições existentes, como ocorre no Brasil e no Uruguai. Muitos situados à esquerda do PT e da Frente Ampla criticam seus governos justamente por se terem ajustado exageradamente à antiga ordem.

Talvez se pudesse argumentar, usando a linguagem de Antonio Gramsci, que estes últimos são países com características mais "ocidentais", ao passo que Venezuela, Bolívia e Equador apresentariam certos elementos "orientais". Em poucas palavras, nos países "refundadores" a ruptura seria ainda uma possibilidade, enquanto no Brasil e no Uruguai seria difícil fugir de algum compromisso.

Mesmo assim, pode-se destacar uma semelhança básica nessas duas experiências: o fato inédito de governos de esquerda se manterem no poder na América Latina. O principal motivo para que isso ocorra é o fim da guerra fria. Isto é, se a União Soviética já não existe, também os EUA não têm mais motivos para impedir que governos de esquerda apareçam na região de sua maior influência.

Assim, governos que reivindicam representar as maiorias das populações de seus países acabaram se espalhando pela América Latina. Tal situação contrasta com nossas independências, movimentos que foram basicamente iniciativas da elite criolla. O peruano José Carlos Mariátegui chegou a caracterizar a independência latino-americana como uma revolução inconclusa. Inconclusa precisamente porque foi incapaz de incorporar as massas populares.

Paradoxalmente, é a nova situação que possibilita a Chávez fazer uso do cadáver de Bolívar. Ou seja, apesar do efeito cômico de tal esforço, a referência à independência ainda faz sentido entre nós.

PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP E PESQUISADOR DO CEDEC

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.