O calote equatoriano

Se a artimanha deu certo na primeira eleição, que o levou à presidência do Equador em janeiro de 2007, por que não haveria de dar também nesta, em que disputa a reeleição? Criticando duramente os credores e afirmando ser a dívida externa um "atentado" ao Equador e aos pobres do país, Rafael Correa foi eleito pela primeira vez há pouco mais de dois anos e se tornou o franco favorito na disputa deste domingo.Para dar ainda mais força a esse estratagema, nas vésperas da eleição anunciou as condições extorsivas para renegociar a dívida, que não está honrando há meses. Ofereceu aos credores a "oportunidade" de escolher entre receber só 30% do valor a que têm direito por contrato ou continuar sem receber nada - ou um enorme calote ou o calote total. Deu-lhes prazo até 15 de maio para decidir. Até lá, quaisquer que sejam as respostas ou contrapropostas dos credores, a sucessão equatoriana estará decidida.Embora a crise internacional tenha afetado suas exportações, especialmente de petróleo, o Equador tem perfeitas condições de honrar sua dívida externa, que, no total, não chega a 20% do PIB. O país dispõe de reservas internacionais suficientes e o fluxo de suas exportações continua intenso, apesar da crise. Por isso, não foi por razões técnicas ou financeiras que o governo de Correa impôs aos credores um desconto de 70% para a renegociação da dívida que tinha deixado de pagar. Foi apenas por razões eleitorais, para continuar iludindo a parcela da população que acredita no seu discurso e nas suas bravatas contra empresas e capitais estrangeiros - inclusive brasileiras.Durante a campanha, Correa afirmou que "aqui as transnacionais não ditam as regras; as regras são ditadas pelo Estado equatoriano". De fato, assim tem agido, ditando as regras que lhe pareçam mais adequadas para assegurar prestígio interno, mesmo que desafiem as normas internacionais. Expulsou do país, por exemplo, as empresas brasileiras Odebrecht e Furnas e ameaçou não pagar o empréstimo que o governo equatoriano tomou no BNDES.Essas atitudes podem resultar em graves dificuldades para o país, pois a insistência nesse tipo de política de sistemático desrespeito às regras internacionais leva ao isolamento. Mas isso Correa parece não temer, pois conta com o apoio de seu companheiro de bravatas, o presidente venezuelano Hugo Chávez. Mas, com as dificuldades que também a Venezuela enfrenta, esse apoio pode se resumir à retórica.Desde a primeira vez que se apresentou ao eleitorado equatoriano como candidato presidencial, Rafael Correa vem responsabilizando os credores externos e, no plano interno, seus adversários políticos pelos prejuízos que teriam imposto ao país com a renegociação realizada em 2000. Prometeu auditar toda a dívida externa, que hoje totaliza US$ 10,06 bilhões, equivalentes a 19,7% do PIB, e escolheu pessoas comprometidas com seu programa político-eleitoral para fazer o trabalho.O resultado não poderia ser diferente daquele a que esse grupo chegou. A comissão nomeada por Correa concluiu que uma parte significativa da dívida é "injusta", porque resultou de uma conspiração externa da qual participaram os organismos internacionais de crédito e os bancos estrangeiros. Por ser injusta, não deveria ser paga. Em novembro, Correa anunciou que deixaria de pagar os juros dos chamados Bônus 2012; semanas depois, fez o mesmo com os Bônus Global 2030. As emissões desses dois tipos de títulos totalizam US$ 3,38 bilhões. Esse é o total de títulos que o governo Correa se propõe a recomprar, com desconto de 70%.Não deve passar pela cabeça de Rafael Correa a possibilidade de, em legítima defesa de seus interesses, os credores recusarem a proposta escorchante que lhes foi apresentada e recorrerem aos tribunais para arrestar depósitos do Banco Central equatoriano no exterior ou carregamentos de petróleo exportado pelo país. Essa aventura de inspiração eleitoral pode ter graves consequências econômicas para todos os equatorianos, tenham ou não votado em Correa.

, O Estadao de S.Paulo

24 de abril de 2009 | 00h00

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