O caminho da guerra civil

No início de agosto, o secretário de Estado americano, John Kerry, disse que os militares do Egito estavam "restaurando a democracia" no país, a pedido de "milhões e milhões de pessoas". Foi o argumento que os Estados Unidos encontraram para apoiar o golpe que tirou Mohamed Morsi da presidência, para a qual ele havia sido democraticamente eleito. Mas essa falácia durou apenas duas semanas: a "restauração da democracia" já custou centenas de mortos, numa onda de repressão que nada deve aos tempos do ditador Hosni Mubarak - aquele cuja renúncia foi festejada como a principal conquista da chamada "Primavera Árabe".

O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2013 | 02h08

Depois de experimentar a promessa da democracia, o Egito, o mais importante país do mundo árabe, trilha agora o caminho que leva à guerra civil.

A trajetória para esse enfrentamento começou a ser traçada com a eleição de Morsi, em junho de 2012, quase um ano e meio depois da queda de Mubarak. Morsi faz parte da Irmandade Muçulmana, a mais bem articulada organização civil do Egito, perseguida por todos os governos do país desde sua fundação, em 1928. Conhecida por sua defesa radical dos princípios islâmicos, a Irmandade é, principalmente, provedora de assistência social a milhões de egípcios pobres.

Foi esse fator que determinou a vitória de Morsi e de seu grupo político. A Irmandade teve papel apenas marginal nos protestos que derrubaram Mubarak, mas, dada a sua grande capacidade de mobilização, superou com enorme facilidade os liberais, e seus candidatos obtiveram 75% das cadeiras do novo Parlamento.

O establishment militar, que sempre governou o Egito, não tardaria a reagir. Dois meses depois da eleição de Morsi, a Justiça, a mando dos quartéis, fechou o Parlamento, alegando irregularidades em diversas candidaturas. Com a posse de Morsi, o Parlamento reabriu parcialmente, mas o confronto estava estabelecido.

Morsi agiu conforme o figurino que lhe coube. Atribuiu-se poderes extraordinários e fez aprovar uma Constituição de forte caráter religioso. Além disso, fracassou como administrador, agravando a já profunda crise econômica e social no Egito. Todo esse quadro empurrou os liberais para uma aliança com os militares, cujo resultado foi o golpe pela "democracia".

A Irmandade Muçulmana reagiu, organizando protestos que incluíram a presença permanente de manifestantes nas ruas. A brutal repressão não tardou. Em 8 de julho, 51 partidários de Morsi foram mortos pelo Exército diante da Guarda Presidencial, no Cairo. Uma semana depois, no mesmo dia em que os Estados Unidos reconheciam o governo militar, soldados mataram mais sete manifestantes perto da Praça Tahrir. Em 26 de julho, outra manifestação da Irmandade foi reprimida, com um saldo de 60 mortos. No dia seguinte, haveria ainda outros 80 mortos e, no final do mês, os generais advertiram que sua paciência estava se esgotando, exigindo que a Irmandade encerrasse o protesto.

Anteontem, o Exército cumpriu sua ameaça e abriu fogo contra a multidão, matando mais de 500 pessoas e liquidando qualquer possibilidade imediata de negociação. Ao mesmo tempo, impôs leis de emergência que, na prática, formalizam o regime militar. A Irmandade não se intimidou - pois, afinal, a repressão e a clandestinidade fazem parte de sua história - e promete manter seus militantes nas ruas. Muitos deles se dizem "prontos para morrer", lembrando o papel importante que o martírio tem no imaginário fundamentalista islâmico. Teme-se também a deflagração de uma onda terrorista.

Todos esses elementos explosivos apontam para uma escalada de violência com consequências imprevisíveis para o Egito e toda a região. Cabe à comunidade internacional pressionar os militares egípcios para ao menos impedir a continuidade do banho de sangue. Para isso, é fundamental que os Estados Unidos repensem sua assistência ao governo egípcio, que soma US$ 1,3 bilhão, e passem a chamar os golpistas de golpistas.

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